Fui buscar o meu filho mais velho ao final do primeiro dia de um campo de férias. “Foi giro?” perguntei assim que entrámos no carro, “Sim, até fiz um amigo”, “Que bom! Como se chama?”, “Não sei, mas tem uma t-shirt com um hambúrguer”.
Quando somos crianças fazemos amigos todos os dias. Basta partilharmos uma sandes ao lanche (na minha infância um Bollycao) para ser selado um pacto para a vida, ou até ao dia seguinte. Com o decorrer dos anos torna-se cada vez mais difícil atribuir esse título a quem connosco se cruza, não só porque nos fazemos mais exigentes, mas também porque as amizades requerem tempo, tempo esse que vai sendo cada vez mais escasso.
Eu continuo a ser um pouco como o meu filho, faço amigos quase todos os meses e, assim como ele, chego a casa e digo ao meu marido “Hoje fiz um amigo!”. Não consigo entender as pessoas que dizem ter fechado a loja das amizades. Ao falar sobre o assunto com a minha banda, quase todos eram da opinião de que os amigos verdadeiros são os da infância e que não vale muito a pena insistir em novas relações porque nunca nos vão conhecer como os outros. Será que o tempo passado com os nossos amigos mais antigos é critério suficiente para fazer deles os mais importantes? Não foram eles, na sua maioria, impingidos por uma escola partilhada, fruto de uma necessidade de socialização ou consequência da amizade entre os nossos pais? Será que se os conhecêssemos hoje os escolheríamos também? Alguns sim, outros provavelmente não. Recuso-me a pensar que fiz o último amigo verdadeiro aos 22 anos e que a partir daí todas relações foram menos profundas. Se podemos amar depois da juventude, sendo o amor o mais íntimo dos sentimentos, porque razão não podemos fazer verdadeiros amigos enquanto adultos?
Com 30 e 40 anos, manter uma amizade é mais difícil do que manter uma boa depilação ou um bonsai. Um jantar com amigos é algo marcado com meses de antecedência e, mesmo assim, há sempre quem desista no próprio dia por ter um filho com gripe, uma babysitter que cancelou ou um projeto que tem de ser entregue no dia seguinte.
Debato-me muitas vezes com esta questão de onde investir o pouco tempo que tenho para dedicar às amizades, se nos amigos antigos, a quem não tenho de justificar as minhas atitudes porque me conhecem desde sempre, ou nos recentes, para que os possa conhecer melhor e porque, se os escolhi nesta fase da minha vida, são pessoas com quem tenho mesmo vontade de estar. Dou por mim a largar a culpa da maternidade para dar a vez à culpa das amizades. Oscilo entre ser uma má mãe ou uma má amiga, e quando sou boa numa delas, é porque estou a fracassar na outra.
O Facebook banalizou a palavra “amigo” atribuindo por igual o estatuto a todos os nossos conhecidos, quando existe uma grande diferença entre conhecer alguém e ser seu amigo. Tenho centenas de “amigos” no Facebook e talvez uma dezena sem aspas. Considero isso uma sorte. Ter amigos é uma sorte. Fazer amigos é uma sorte, como diz o Sérgio Godinho na sua canção “É que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há”. E se o Sérgio Godinho disse ao mundo que fez um amigo quando tinha exatamente a minha idade, também eu o continuarei a fazer, mas antes, pergunto-lhes o nome.