Crónicas

Duolinguarudo

Sempre tive um enorme prazer em aprender idiomas, mas nunca gostei de o fazer numa sala de aulas. Aprendi a falar italiano com um namorado, aprendi espanhol com outro namorado, o francês não é perfeito mas dá para desenrascar (possivelmente por não ter havido línguas envolvidas na aprendizagem desta língua) e o inglês é produto de seis anos a viver nos Estados Unidos. Não sei se gosto de aprender novos idiomas ou se gosto tanto de conversar que não consigo aceitar que a língua seja uma barreira.

Há cerca de dez anos comecei com vontade de aprender japonês. Como não conhecia nenhum japonês em Lisboa que quisesse conversar comigo de borla, tive de procurar um que o fizesse por dinheiro, um sensei (professor em japonês). As aulas eram interessantes e a gramática da língua é muito simples, mas os caracteres davam comigo em doida. São três alfabetos, cada um com os seus símbolos impossíveis de memorizar. Todos os dias tinha de dedicar pelo menos meia hora a desenhar aqueles triângulos com pernas e quadrados com braços, e todos os dias me esquecia de pelo menos metade dos caracteres aprendidos na véspera. Comecei a desmotivar após uns meses. Sabia dizer várias frases e ter aquelas conversas que ninguém nunca teve: “O meu nome é Luísa. Sou portuguesa. Onde é a casa de banho?”, mas os caracteres comportavam-se como os números nos meus anos de má aluna a matemática: dançavam pelo ar perdendo todo o sentido. Desisti das aulas.

No ano passado um amigo comentou que estava a aprender alemão numa aplicação. Fiquei curiosa e fiz imediatamente o download. Selecionei a opção “conversa” quando a aplicação me perguntou quais as minhas intenções com a língua japonesa e comprometi-me a dedicar todos os dias quinze minutos àquela atividade. Comecei cheia de entusiasmo. Abri um documento no telemóvel onde ia colocando todas as palavras novas e os quinze minutos chegavam muitas vezes a ser trinta.

Foi numa semana mais exigente de trabalho que recebi a primeira mensagem: “Já faz três dias”. Ignorei. Seguiram-se semanas de trabalho e vida familiar que me impediam de dedicar tempo ao japonês e as mensagens não paravam: “Me ajuda a te ajudar”, “Você tem medo de compromisso, Luísa?”. Senti-me numa relação abusiva com o Duolingo. As mensagens continuavam: “O Duo entendeu o recado”, “Ninguém me ignora assim”, “Você deu ghosting no Duo?”, “Vou tentar de tudo”. Cada vez que recebia uma destas mensagens, perdia toda a vontade de abrir a aplicação, “O Duo adormecido está esperando…”, “Caiu um cisco no meu olho…”, “Você magoou o Duo”, “Eu sei que você não me superou”. Comecei inconscientemente a ter medo daquele tamagotchi brasileiro. Quem foi a pessoa que desenhou tal pássaro tóxico e manipulador?

Não quero apagar a aplicação porque isso significaria desistir novamente de aprender japonês, mas sinto que se a abrir, o pássaro voltará a ter esperança e eu serei uma daquelas senhoras que aparece no telejornal por se ter casado com um produto da inteligência artificial.

“Luísa, esqueceu de nós dois?”. Não esqueci não, Duo. Vamos só dar um tempo.


Os Cinco e a viagem à Serra da Estrela

Todos os anos, no dia 31 de dezembro, faço a minha lista de resoluções e leio a do ano anterior. Um dos segredos (que descobri com a experiência) é colocar pontos que já sei de antemão que se irão concretizar, como viagens já marcadas, para evitar a frustração de, no final do ano, ter mais objetivos por cumprir do que cumpridos.

No ano passado decidi transformar esse ritual numa atividade familiar e cada um dos meus filhos fez a sua própria lista, listas essas que se assemelhavam mais às cartas para o Pai Natal do que a um conjunto de resoluções. Digo-vos apenas que o verbo “ter” foi utilizado muitas mais vezes do que os verbos “ser” e “fazer”. Contudo, todas elas tinham dois pontos em comum: não discutir tanto com os meus irmãos (talvez tenha sido mais sugerido por mim do que uma verdadeira vontade deles) e ir à neve.

No dia seguinte ao Natal (dia em que começamos a pensar na passagem de ano) lembrei-me das listas deles, ou mais concretamente, do objetivo não concretizado: ir à neve. Se era para o cumprir, já só tínhamos cinco dias. Marquei um hotel para a noite seguinte e fui à cave buscar “a caixa da neve”, caixa essa que alberga fatos, luvas e gorros herdados de geração em geração, de alguém que um dia comprou mesmo roupa de neve para usar apenas uma vez.
Acordámos cedo, vestimo-nos com aquilo nos servia (o meu filho de três anos foi com um fato para um ano e meio que lhe deixava os tornozelos de fora), enfiámos a mala e a pá no carro (sim, tínhamos na cave uma pá para deslizar na neve, vá-se lá saber porquê ou de quando) e pusemo-nos a caminho da Serra da Estrela.

Separei-me há oito meses e esta seria a nossa primeira viagem a cinco. Agora que olho para trás, acho que queria provar-lhes (e a mim mesma) que estamos bem, que as coisas não mudaram assim tanto.

Por uma vez decidi que a banda sonora estaria a meu cargo. Não aguentaria uma viagem de três horas a ouvir as Guerreiras do K-Pop. É claro que todos contestaram, é também claro que foram três horas a discutir, mas pelo menos, no meio dos gritos de “oh mãe, ela chamou-me burra”, sempre ouvia uns versos do Chico Buarque.

Enquanto o mapa nos colocava próximos da serra, o tempo continuava a aumentar e não a diminuir, como seria esperado. Decidi então parar numa estação de serviço e comprar almoço: uma sandes para cada um, um sumo, um pacote de batatas fritas e outro de bolachas para a sobremesa – um almoço saudável, nutritivo e amigo do ambiente. Dois minutos depois já tinham entornado um sumo e um pacote de batatas no chão do carro. Subi o volume do Chico.
Ao começarmos a subir a serra, entendi o porquê de o tempo ir aumentando: os carros estavam parados. Avançávamos dois metros a cada meia hora. O meu filho mais novo gritava: “Mãe! Podemos ir à praia? Eu não gosto de neve!” e eu subia o volume do Chico. O meu filho mais velho saía do carro, apanhava grandes pedaços de neve e voltava a entrar para os mostrar aos irmãos. Escusado será dizer que a “neve” se foi juntar ao sumo e às batatas. Duas horas depois, o GPS indicava estarmos a apenas 3km da Torre, mas o nevoeiro era cada vez mais denso. As pessoas estacionavam e a tentavam sair dos seus carros, fazendo um enorme esforço para manter os pés no chão, tal era a força do vento. Comecei a imaginar-me a sair do carro e ver os meus filhos voar um para cada lado, perdendo-os no meio do nevoeiro. Não vou negar que durante uns segundos a ideia não me pareceu má de todo. “Vamos voltar para baixo!”

Parámos num sítio onde já se via o sol, numa zona junto à estrada onde outras crianças brincavam. Preparei tudo: a cenoura, o cachecol do Benfica, a pá e, claro, os gorros e as luvas. Confesso, correndo o risco de me julgarem, que não tinha luvas para todos, e que por isso talvez alguns tenham ido brincar com meias antiderrapantes nas mãos, talvez.

Brincámos durante uns belíssimos dez, vá, doze minutos até todos começarem a chorar e a dizer que queriam ir para o carro, só o mais velho queria ficar. Entrámos no carro e mudei a roupa a todos enquanto o mais pequeno dizia: “Não gosto da neve, é fria.” Já todos mais secos, parámos num restaurante para beber um chocolate quente. Mais tarde este momento seria relembrado por todos eles como o melhor momento do dia.

Partimos então para Coimbra. Não me perguntem porquê Coimbra, a única razão foi por estar a duas horas de casa e não ter de conduzir tanto no dia seguinte. Ninguém diria que o único 20 da minha vida foi a Geografia. Fomos à cadeia de hambúrgueres que dispensa publicidade, para despachar o jantar o mais rápido possível e tentar manter (reconquistar ou conquistar) o lugar de melhor mãe do mundo, e meia hora depois estávamos no hotel. Escolhi um onde já tinha ficado, um que aparece na internet como “hotel familiar”.

Demorei quase uma hora a tentar que se acalmassem e só consegui tal proeza quando os deitei a todos na cama comigo. Éramos cinco numa cama de casal pequena. A meio da noite a minha filha mais nova acorda-me: “Mãe, não vais acreditar o que eu fiz na cama!”. Chichi, menos mal.
De manhã, depois de lhes gritar sempre em surdina que não fizessem barulho, de dizer frases como: “há quem junte todo o dinheiro que faz num ano para poder vir dormir a um hotel e vocês estão a perturbar essa pessoa” e de perceber que os meus filhos não tinham qualquer empatia pela pessoa imaginária em questão, fomos tomar o pequeno-almoço.

Era o típico buffet de hotel. As mesas estavam cheias de crianças e os meus apressaram-se a pegar nos pratos para os encher com tudo aquilo que não entra em nossa casa: bacon, salsichas e nutella, tudo a coexistir no mesmo prato fazendo jus ao conceito de agridoce. Finalmente consegui fazer a minha papa de aveia e sentei-me à mesa com eles. Enquanto conversávamos, eles saíam da mesa à vez para ir buscar mais sumo, mais um bolo de arroz ou mais salsicha com nutella, mas tudo se encontrava aparentemente calmo. Eis senão quando, as duas senhoras que estavam na mesa ao nosso lado se levantam e uma delas diz em inglês com um ar enfurecido: “Da próxima vez assegure-se de que os seus filhos ficam sentados à mesa e não se levantam.” Não sinto que as pessoas tenham a obrigação de aturar os meus filhos, tenho até muito cuidado com isso, mas estávamos num buffet. Quem fica sentado num buffet? E aquele hotel é um hotel pensado para famílias. Tudo isto foi o que disse a mim mesma para abafar a culpa que sentia.
Voltámos a enfiar a tralha toda no carro. Quando abri a minha porta apercebi-me de que decorria uma sondagem entre os meus filhos: “Quem é que acha que a mãe está sempre a gritar?”. Pus o “Both sides now” da Joni Mitchell e chorei as duas horas de caminho enquanto os meus filhos jogavam às cartas no banco de trás.

Talvez a senhora inglesa tenha razão e eu ainda não consiga controlar os meus filhos sozinha em viagem, talvez não continue tudo igual e talvez não esteja tudo bem, mas vou tentando, até porque na lista deles deste ano está: ir a Cabo Verde, truque que aprenderam comigo pois a viagem está marcada para o final de Janeiro.


Selva no Parque

Uma das minhas melhores amigas fez anos e decidiu celebrar a data num restaurante-cinderela, o novo conceito no qual à meia-noite um local que serve refeições se transforma, sem fadas nem “Bibbidi-Bobbidi-Boo”, numa discoteca. A partir das dez da noite a música vai subindo de forma pouco subtil e ficamos limitados a falar apenas com os nossos vizinhos do lado, aqueles mesmo coladinhos a nós. Isso às dez, porque às onze já só conseguimos que nos ouçam se lhes gritarmos com a boca dentro da orelha. É uma experiência interessante para uma pessoa tão faladora quanto eu, porque dei por mim pela primeira vez a pensar antes de falar: “Será que tenho mesmo de partilhar esta minha opinião sobre a alface iceberg?”.

Chegada a meia-noite, cantaram os parabéns à minha amiga e a outras dez pessoas que faziam anos no mesmo dia, e trouxeram-nos a conta, mesmo como quem diz “toca a despachar que isto agora é uma pista de dança e vocês sentadas ocupam muito mais espaço.” Quando olhei para a conta apercebi-me que iria pagar aproximadamente 5€ por cada bago de arroz arbóreo do meu risotto de lima, mas não comentei com ninguém; naquele momento a única maneira de o fazer seria por mensagem.

Pagámos, levantámo-nos e demos início à parte da dança. Não sendo a pessoa mais coordenada do mundo, adoro dançar e há já alguns anos que não punha os pés numa discoteca (há tantos que já nem se deve dizer discoteca, será o equivalente aos meus pais dizerem boîte?). Bom, o certo é que dado o tempo que estive ausente de um lugar de tal natureza, já não me lembrava da selva que vai ganhando vida ao longo da noite. É um verdadeiro “BBC vida selvagem”.

Para começar temos o Homo Habitualis. Não confundir com o Homo Sinistrus que, sendo também um frequentador assíduo, fica apenas a um canto a observar as suas presas com o olhar de quem foi vegetariano até àquele momento. O Homo Habitualis, pelo contrário, domina o lugar como se fosse um dos sócios, até porque, com as vezes que lá vai e o dinheiro que já lá gastou, dar-lhe-ia seguramente para adquirir uma quota da sociedade. O Homo Habitualis desliza pela pista passando habilmente por entre um mar compacto de gente, quando a maioria de nós sente que trocou ADN com dez indivíduos apenas no caminho para a casa de banho. O Homo Habitualis conhece todas as canções, sabe as letras de cor mesmo que sejam em línguas diferentes e ergue o braço a la fascista assim que ouve os primeiros acordes, como se cada canção fosse por si a mais aguardada. O Homo Habitualis é um predador atento e destemido, olha as presas sem hesitação e não se deixa abater quando uma das suas investidas não se prova frutífera.

Depois temos o Homo Pilaris, aquele que se aproxima do grupo de fêmeas e se vai colando cada vez mais, acabando por encontrar um lugar e ganhar raízes, ficando apenas a ocupar espaço sem nunca dançar. O Homo Furis utiliza a mesma técnica de aproximação do Homo Pilaris mas quando chega perto do grupo tenta, a todo o custo, com mais ou menos jeito, mais ou menos respeito, entrar no círculo fechado.

Durante todas estas investidas, as presas que nada fizeram para o ser (o contrário dirão os Numeiros desta vida), vão dançando numa roda cada vez mais fechada, acabando quase abraçadas a mexer apenas os olhos – uma técnica bastante utilizada no reino animal para fugir aos predadores.

À uma e meia da manhã, depois de uma dose suficiente de dança ocular e de música que fura os tímpanos, fui para casa, mas a verdade é que saí da minha noite de Selva no Parque com vontade de dançar de verdade, com espaço, com boa música e sem me sentir a ser narrada pelo David Attenborough.