Estava eu a desfrutar da minha única manhã livre naquela semana quando a minha mãe me liga: “O pai sentiu-se mal. Podes levá-lo ao hospital?” Não é a primeira nem a segunda vez que o meu pai se sente mal quando a minha mãe está fora, o que me fez diagnosticá-lo imediatamente com saudadite aguda enquanto me punha a caminho de Lisboa.

Deixei o carro em quatro piscas e subi cinco andares a correr. Ao atravessar a porta, dei com o meu pai sentado com um ar moribundo. Disse-me não ter forças para se levantar, o que me fez agarrar no telefone e chamar uma ambulância. “Vamos para o Xico” disse o senhor da ambulância enquanto transferia o meu pai para uma cadeira de rodas. “Desculpe, o que é o Xico?” perguntei envergonhada por sentir que era algo que deveria saber. “O São Francisco Xavier”, esclareceu ele.

Quando cheguei à sala das urgências do hospital, tive alguma dificuldade em encontrar o meu pai. Deviam ser uns vinte senhores e senhoras de cabelo grisalho deitados em macas. Procurei pelo nome. Lá estava ele numa maca em frente a uma porta, o que fez do meu corpo um obstáculo permanente, chegando até a pensar deitar-me na maca ao lado do meu pai só para não ter de ouvir outro “com licença”.

Ao nosso lado estava um senhor de noventa anos que não conseguiu ouvir uma pergunta feita pelo médico e quando este lhe agarrou o braço, o senhor deu-lhe a mão e agradeceu o gesto de carinho, não entendendo que o médico estava apenas a examiná-lo.

Três camas à esquerda do meu pai estava a Sra. Piedade que, não fazendo jus ao nome, esteve oito horas seguidas a gritar “Oh menina”. As enfermeiras acudiam a Sra. Piedade, mas assim que a deixavam o mantra voltava tornando-se música de fundo.

A sala de urgências do São Francisco Xavier não tem cadeiras para os acompanhantes. Acredito que seja propositado, não é suposto ficarmos ali o tempo todo, para isso há uma sala de espera. Foi para essa sala que me dirigi depois de duas horas em pé a obstruir uma passagem.

A sala de espera foi outra experiência que também merece ser relatada. Assim que entrei vi uma senhora velhota numa cadeira de rodas com o cabelo cheio de sangue todo colado à cabeça, mas mesmo assim havia algo mais forte que essa visão dos infernos: o cheiro de urina. Nunca senti algo assim e há oito anos que sou uma mudadora de fraldas profissional. Aquela urina é adulta, está entranhada nas roupas e a cada minuto que passa torna-se mais ácida e insuportável. No meio de tudo isto, há uma senhora que liga para toda a sua lista telefónica dizendo sempre o mesmo “Estou no hospital com a mãezinha, mas ela agora está bem. Só te estou a contar a ti. Não vale a pena preocupar outras pessoas.

Tento comer alguma coisa, mas não há um café naquele hospital. “Há uma cantina mas é só para funcionários”, diz o segurança. Compro um pacote pequeno de Marinheiras numa máquina.

Com tudo isto vou à casa de banho e vejo que me apareceu o período. Há mais de vinte anos que ele aparece todos os meses, há mais de vinte anos que me apanha de surpresa. Usei o truque do chumaço de papel higiénico, sem adivinhar que o dia ainda seria demasiado longo para aqueles preparos.

Com as pernas descansadas, cuecas de super-herói, e o cheiro de urina incrustado nas minhas narinas, volto para junto do meu pai. Já não está em frente à porta. Agora ao seu lado está um senhor que tenta explicar ao médico a razão de ali estar: “Bom, Sr. Doutor, hoje acordei e comi duas torradas, uma com manteiga e outra com doce. Comi também umas três uvas. Agora não me lembro ao certo se foram três ou quatro, mas são aquelas uvas pequenas sem grainha, sabe?” Esta descrição arrastou-se por mais uns vinte minutos, tanto tempo que perdi o interesse e não cheguei a ouvir a parte em que o senhor decidiu ir para o hospital. Nisto vejo uma senhora que a cambalear se tenta levantar da maca e corro para a ajudar. “Vocês sequestraram-me, seus bandidos”, diz a senhora enquanto tenta apoiar os pés no chão. Os enfermeiros correm para a agarrar e ela inicia uma sequência de Kung Fu para os deter, arranhando a cara de uma das enfermeiras com um golpe certeiro. Para a acalmar amarram-na à cama, o que me deixa bastante desconfortável, e estacionam a maca em frente à porta onde o meu pai tinha estado de manhã. A senhora amarrada deveria ter uns oitenta anos e usava peruca. Não sei dizer se a dita peruca era velha ou apenas de má qualidade, pois a parte de trás tinha mais peladas de rede que cabelo. Devem tê-la sedado porque acalmou. Já eu não conseguia desviar os olhos dela. Via a peruca que descia a toda a velocidade até lhe tapar metade da cara. E ela assim ficava: deitada, amarrada, com a peruca até à boca. Pedi a uma enfermeira que lhe ajeitasse a peruca, mas de cinco em cinco minutos o mesmo acontecia. Deixei de olhar.

Se eu já admirava o trabalho dos profissionais de saúde, após aquelas nove horas, sinto que cada um deles merecia um pequeno altar. No meio daquele caos, todos sorriem, todos são amáveis e pacientes. Todos respeitam o doente.

Eram nove da noite quando saímos do Xico. O meu pai com um diagnóstico de quebra de tensão, eu de pés desfeitos, malnutrida e odor fétido.