Um problema de cabeça

Num ato de desespero gasto mais 50€ em novos produtos que prometem acabar de vez com os piolhos. Já vamos na terceira ronda em menos de um mês. “Mata os piolhos e as lêndeas por asfixia”, parece-me perfeito, “Levo três”.

A senhora da farmácia olha para a minha filha e diz “Pois, realmente tem aí uma lêndea, coitadinha”. Discretamente dou um passo atrás. Não quero que ela ouse pousar os seus olhos de lince no meu cabelo.

Saio da farmácia pronta para a tarefa hercúlea que é acabar com os piolhos numa casa de seis pessoas. A cena repete-se: cinco enfiados numa única casa de banho e o meu filho mais novo a correr pela casa esfregando o cabelo cheio de produto em tudo o que é tecido e parede, deixando um rasto de líquido verde e viscoso que em pouco ou nada difere da expetoração.

Sempre que vejo um dos meus filhos coçar a cabeça com alguma intensidade (e não como auxílio de um pensamento mais elaborado), enfio-os a todos na banheira e no final vou eu. O meu marido diz não ser possível os piolhos se interessarem pela sua cabeça visto para um piolho ser o equivalente a um deserto onde esporadicamente e inexplicavelmente se avista uma palmeira. No início dei-lhe razão, mas ao fim de três tratamentos sem sucesso tendo a pensar que talvez seja ele a causa do fracasso. Imagino os piolhos a dizerem uns aos outros: “Pessoal, ouvi dizer que é noite de tratamento. Tudo para as palmeiras. Cada um carrega as lêndeas que conseguir. Não tirem nada das mochilas que mais logo voltamos.”

É estranho isto de no século XXI ainda haver piolhos urbanos, digo urbanos porque é normal que os rústicos existam, é próprio do campo, mas como é que os piolhos chegam às cabeças das crianças da cidade? Também não vemos os miúdos por aí com pulgas.
Vem-me à memória uma imagem da minha mãe a passar aquele pente terrível pelo meu cabelo, sempre embaraçado, enquanto faço o mesmo às minhas filhas e penso “Que raio de tradição esta”. No meio de toda aquela confusão dou por mim numa felicidade extrema ao avistar um pontinho preto enquanto passo o dito pente pela toalha branca. Talvez seja um borboto, mas a minha sede de extermínio destes parasitas de mil patas fala mais alto.
Quando eu era criança, o “Quitoso” era o único champô que havia para este efeito. Agora há uma panóplia de opções, “Extra forte”, “100% eficaz”, “5 minutos apenas”, e todos eles prometem aquilo que até agora nenhum conseguiu cumprir, para além de deixarem o cabelo oleoso durante uma semana.

Mudei os lençóis e os pijamas e asfixiei os bichos como a embalagem me ensinou. Agora é esperar por amanhã. Basta um roçar de unha no coro cabeludo para enfiar o meu marido no banho ou para o asfixiar juntamente com as lêndeas e os piolhos que descasam nas suas palmeiras.