Tsie Tsie (Obrigado em Mandarim)
Estou neste momento a regressar da China. Serve este texto para expor aquelas conclusões de pessoa que, após nove dias de viagem, julga ter entendido todo um povo e a sua cultura. É como se cada cidadão fosse um embaixador da China e, se ele cospe, é porque todos cospem. Falando em cuspir, podemos começar por aí. Muito se cospe na rua por aquelas bandas. O que é interessante referir, já que estamos a analisar este povo ao pormenor, é que a ranhoca dos chineses não vem da garganta, mas sim de um lugar muito mais abaixo. Não me peçam para dizer de onde porque tudo o que sei sobre o corpo humano aprendi através do “Era uma vez o corpo humano” e já lá vão trinta anos. Mas voltando à ranhoca, o barulho que esta faz ao subir denuncia um percurso mais demorado e um lugar de origem com mais reverberação. E enquanto estamos a falar de barulhos, despacho já o facto de o arroto ser também algo natural e a qualquer momento alguém poder decidir fazê-lo na nossa cara, como me aconteceu num mercado em Macau.
Outra ilação precipitada e pouco fundamentada é que a China é um país muito seguro e as pessoas muito corretas. Nunca ninguém nos cobrou preço de turista por nada e andámos sempre sozinhas, eu e a minha manager, a qualquer hora do dia ou da noite, sem nunca sentirmos medo. É também um ótimo país para viajar com crianças, não que eu as tenha levado, mas fiquei com essa vontade.
A comunicação é talvez o maior desafio e nem com gestos nos safamos. Dei por mim a dizer “muuuuu no, muuuu no” para dizer que não queria leite de vaca e, mesmo assim, veio com leite de vaca. No primeiro dia, pedimos umas couves salteadas e a senhora trouxe à mesa dois tipos de couves para escolhermos. Depois de meia hora, quando já tínhamos comido todos os outros pratos, as couves continuavam sem chegar. Perguntámos à senhora, que nos respondeu apenas: “No”. O meu amigo, que já vive na China há uns bons anos, disse-nos que o melhor era não insistir. Como dizia o cucu: “Couves não hei-de eu comer.”
Ainda sobre a comunicação, em Pequim fomos à Muralha da China e no final comprámos um bilhete que pensávamos ser para descer nas cadeiras ao estilo das cadeirinhas das estâncias de esqui. Só quando chegámos ao fim da fila é que nos apercebemos que os nossos bilhetes eram para descer a montanha de escorrega.
Outra coisa muito interessante na China é o conceito de fila. Ora, a fila existe, mas ninguém a respeita. No início ficava só indignada, ao fim de uma semana, se alguém me passava à frente, eu passava à frente novamente e ficávamos nesta dança até chegarmos ao balcão. Ninguém fica ofendido. É uma espécie de dança tradicional chinesa.
Aprendi também, nesta longa semana, que os nomes chineses têm sempre um significado. Conheci uma rapariga chamada “Neve”, uma “Flor de Pereira” e um “Guerreiro”. É interessante, no entanto, que muitos chineses se apresentem primeiro com o seu nome ocidental, escolhido por eles talvez pelo som ou pela facilidade da fonética, esse sim, desprovido de significado.
Nesta ida a Macau, tive também a oportunidade de visitar algumas escolas para apresentar o meu livro infantil, agora traduzido para chinês. Percebi, por aquilo que vi e por conversas que fui tendo, que o sistema de ensino chinês é muito rigoroso e que os pais investem tudo no futuro dos filhos, muitas vezes sacrificando as horas de brincadeira. Assim sendo, faz sentido que os adultos demonstrem uma infância tardia, usando mochilas da Hello Kitty ou do Pikachu com quarenta anos.
Quanto à comida, é difícil ser vegetariano num país onde os menus têm apenas fotografias e ninguém fala inglês, mas comi coisas muito boas. Se estou completamente segura de não ter passado uma semana inteira a comer caldos de galinha e de peixe? Não.
Outro facto interessante é nunca nos darem guardanapos nos restaurantes, principalmente sendo a sopa um prato muito popular. A verdade é que no início me babava bastante, mas fui melhorando a técnica ao longo da semana e, no final, já nem precisava de auxiliares de limpeza. Acredito ter sido essa falta de com que me limpar que no último dia me fez descobrir no bolso de um casaco, um guardanapo de pano da embaixada, sem ter ideia de como lá foi parar. Um guardanapo como souvenir de um país sem guardanapos.
Na China cheira sempre muito a alguma coisa, sendo que os dois cheiros mais característicos são o incenso e a comida que, de dois em dois metros, oscila entre o doce e o salgado. Vemos pessoas a comer a todas as horas. Segundo nos contaram, os chineses chegam a almoçar três vezes ao dia e a jantar duas. É também bastante impressionante a velocidade com que o fazem.
Antes desta viagem, a minha experiência com a cozinha chinesa era inexistente. No último dia fomos a um restaurante onde a especialidade era “Pato à Pequim”. Nunca tinha visto alguém comer aquele prato e por isso improvisei. Peguei no pequeno crepe, coloquei lá dentro alguns legumes, por cima o molho e fechei (relembro que sou vegetariana e, por essa razão, o dito pato ficou de fora). Quando trinquei o crepe pareceu-me muito rijo, mas estávamos com outras pessoas à mesa e tive vergonha de partilhar a minha inexperiência. Tentei com mais força. Nada. Os meus dentes não rasgavam o crepe. Foi então que me perguntei se aquilo que estava a trincar não seria papel. Fui examinar o cesto e confirmei que os crepes se encontram sempre entre duas folhas de papel. Disfarçadamente empurrei o conteúdo do papel para o crepe verdadeiro e comi-o de uma vez, engolindo a vergonha lá pelo meio.
Hoje em dia é muito difícil viajar de verdade. O que quero dizer é que todas as grandes cidades estão muito parecidas, com os seus cafés de brunch e as suas avotoasts. O contraste cultural é quase impercetível e é nesse contraste que reside a verdadeira aprendizagem de uma viagem. Na China senti-me verdadeiramente a viajar. Tenho uma amiga a quem chamo “Rainha das citações” que me dizia que só se aprende com uma viagem não enquanto se está a viajar, mas depois, quando se reflete sobre essa mesma viagem. Foi por isso que escrevi este texto, para refletir, para aprender e, apesar de ter passado pouco tempo, para reviver.