Há um tempo que decidi comprar tudo, ou quase tudo, em segunda mão.

O Pai Natal cá em casa vai à Vinted, o Pai e Mãe Anos também, e a roupa que vestimos também vem de outras pessoas. Com o tempo fui-me tornando cada vez melhor no jogo da negociação. “O quê? Umas calças 5€? Ofereço 3,5€.” e fico muito orgulhosa com cada cêntimo que poupo.

Expliquei aos meus filhos o quanto polui o planeta estarmos sempre a comprar roupa nova, e para tornar a coisa entusiasmante (talvez sem muito sucesso) fi-los imaginar as grandes aventuras que as roupas deles viveram enquanto pertenciam a outras pessoas. Quem é da geração “Quatro amigas e um par de calças” sabe onde me fui inspirar.

Bom, até aqui tudo bem (ou tudo mal para pessoas como a minha mãe que têm nojo de coisas usadas), ensino aos meus filhos um pouco sobre economia circular e ainda poupo dinheiro. Poderia ser apenas uma crónica assim, a vangloriar-me de ser uma boa cidadã e uma forreta de nascença, mas não. Serve esta crónica para expor um problema que surgiu quando aderi a este novo estilo de vida, se é que lhe podemos chamar assim.

Sei que não sou a única a sofrer desta patologia porque já vi o mesmo acontecer com outras pessoas como eu, testemunhas de jeovinted. Passo a explicar: se alguém comenta algo que tenho vestido, deixo de controlar o meu próprio discurso, e sai-me sempre a mesma frase (só muda o valor): “Obrigada. 10€ na Vinted.” Quem é esta feirante que se apropria do meu corpo? De onde vem ela? O segundo problema é que raramente me fico pelo primeiro. O que se segue muitas vezes é um discurso sobre as maravilhas daquele site “Nunca compraste nada lá? Aquilo tem tudo. O meu marido veio de lá também. Já tinha algum uso mas vinha bem embalado num saco de plástico preto mesmo difícil de rasgar” (os jeovinteds vão perceber).

A minha relação com este site, no entanto, começou bastante mal. O meu filho mais velho devora livros mais rápido do que a sua mãe, o que tem algum impacto no nosso orçamento familiar. Decidi então procurar na internet os livros em segunda mão que ele andava a ler. Encontrei um por 4€ (a feirante está de volta) e mandei vir.

Quando a encomenda chegou ao cacifo, por volta de dia 13 de Fevereiro (pode parecer uma informação irrelevante mas vão ver que não é) vinha numa caixa de cartão. Dei-a ao meu filho para abrir, e fui tratar de outra coisa qualquer.

Ouço então o meu marido a gritar da sala “Porque é que compraste isto?”, “Como assim? É só O diário de um banana”, pensei. Quando cheguei à sala estava o meu filho a
exigir a caixa com o seu livro e o meu marido a segurá-la por cima da cabeça para o miúdo não lhe conseguir tocar. O meu marido olhava-me com um ar angustiado e incrédulo enquanto me passava a caixa e perguntava “Porquêêê?”. O que se encontrava lá dentro não era O diário de um banana, mas sim comprimidos para promover a ereção e uns preservativos de cores com outra função qualquer que não cheguei a explorar. Bom, a única semelhança entre os dois produtos não vou ser eu a dizer porque é demasiado brejeira, pensem vocês se quiserem.

Liguei para vários números de telefone para tentar resolver a situação, mas sem sucesso. Após alguns dias levei a caixa aos correios e expliquei à senhora o sucedido, mostrando-lhe aquilo que havia recebido. “Pois, realmente a outra pessoa já tinha reportado a troca.” Imaginei-o numa cama, com alguém ao seu lado a dormir (só podia), e ele com uma luzinha a ler as aventuras do Greg na escola primária.

“Não se preocupe que tratamos de tudo”, assegurou-me a senhora dos CTT. “Aaahhh espere lá” disse rematando com um suspiro. “O quê? Não me diga que vou ter de andar com o raio dos comprimidos de um lado para o outro outra vez?”, pensei já a acusar a frustração. Ela olha-me e diz com um ar desolado “Que chatice. É que o senhor já não vai receber isto a tempo do Dia dos Namorados.”