Push Pop

Quando engravidei da minha primeira filha fiquei sem voz. Foi-se. Acordava rouca e por mais que descansasse, bebesse água e tentasse falar baixo, nada alterava aquela qualidade Olavo Bilac de “trazer por casa.”

A primeira coisa que fazia, assim que abria os olhos, era cantar um “uuuu” para rapidamente concluir que nada havia mudado durante a noite. Nada. Fui a um médico especialista em cordas vocais. Ele disse-me ser comum nas gravidezes as cordas incharem e darem origem a uma rouquidão temporária. Já não estava a inchar apenas por fora, agora também acontecia por dentro, longe do bebé.

Quando a minha filha nasceu, acreditei que assim que ela abandonasse o meu útero, a minha voz me seria devolvida, como se o bebé tivesse temporariamente alugado o meu corpo enquanto a minha voz se encontrava de férias. Nada. Talvez demore uns dias, pensei. Após alguns meses procurei respostas na medicina chinesa. “Está com pouca capacidade respiratória” foi o diagnóstico. Entrei com uma maleita, saí com duas.
Voltei ao primeiro médico e a resposta foi a mesma: hormonas. As hormonas têm as costas largas, mas atenção, não são nenhumas santas. Uma mulher é vítima do raio das hormonas na adolescência, na menstruação, nas gravidezes e na menopausa, ou seja, a vida inteira, tirando a infância, período sobre o qual guardamos o menor número de recordações.

Não contente com o diagnóstico, procurei uma terceira opinião. A médica nova aconselhou-me a fazer terapia da fala, que comecei passados dois dias. Tinha consultas mensais com a médica e semanais com a terapeuta.

Num dos dias de consulta com a médica, cheguei mais cedo e sentei-me a ler na sala de espera. Assim que ouvi o meu nome, dirigi-me ao consultório e deparei-me com a minha médica e três jovens de bata branca. “Luísa, importa-se que estes estudantes de medicina assistam à consulta?” Claro que não me importei. Imaginei que, para quem estava a aprender, pudesse ser interessante observar as cordas vocais de uma cantora.

A médica colocou a câmara na minha boca e fê-la passar a epiglote. Chegada ao destino, parou e ficou a analisar a imagem no ecrã. “Bom, vejo aqui algo na corda” disse observando aquelas duas cortinas de carne. Guardou a imagem e retirou a câmara da minha boca. “Vou ter de lhe fazer uma pergunta” disse, desta vez tirando os olhos do ecrã e fixando-os em mim. Aguardava a minha autorização. Nos segundos que se seguiram pensei: vai perguntar-me se grito muito em casa, que mais poderá ser? Não me parece assim tão embaraçoso. “Diga, doutora.” Os três estudantes de medicina aguardavam curiosos, com olhares de bloco de notas. “A Luísa faz muito sexo oral?”

Se tivesse de fazer uma lista das mil perguntas possíveis, mesmo sendo extensa, esta continuaria a não constar. Nunca tive tanta vontade de ser engolida (talvez não seja a melhor palavra para usar neste contexto) pelo chão. Iniciei um discurso sem nexo, palavras soltas, frases sem verbos. Como fomos de rouquidão para sexo oral? Não me lembro de mais nada, só sei que saí do consultório a correr, mesmo com pouca capacidade respiratória.

Aquilo que a médica pensava que eu tinha, e que se veio a confirmar ser um diagnóstico errado, era uma doença sexualmente transmissível que se vê nas cordas vocais e que se tramite através do sexo oral, mas era mesmo necessário expor-me assim em frente a três desconhecidos? Algo que também nunca entendi foi a pergunta em si, visto uma experiência com um Push Pop humano ser o suficiente para se ficar infetado. Também fiquei a questionar-me sobre a palavra “muito”. Não será o “muito”, muito relativo?

Não me lembro da cara dos três estudantes, mas acredito que eles não se esquecerão da minha.

A voz lá voltou. Eu não voltei lá.