Chronicles

Os Cinco e a viagem à Serra da Estrela

Todos os anos, no dia 31 de dezembro, faço a minha lista de resoluções e leio a do ano anterior. Um dos segredos (que descobri com a experiência) é colocar pontos que já sei de antemão que se irão concretizar, como viagens já marcadas, para evitar a frustração de, no final do ano, ter mais objetivos por cumprir do que cumpridos.

No ano passado decidi transformar esse ritual numa atividade familiar e cada um dos meus filhos fez a sua própria lista, listas essas que se assemelhavam mais às cartas para o Pai Natal do que a um conjunto de resoluções. Digo-vos apenas que o verbo “ter” foi utilizado muitas mais vezes do que os verbos “ser” e “fazer”. Contudo, todas elas tinham dois pontos em comum: não discutir tanto com os meus irmãos (talvez tenha sido mais sugerido por mim do que uma verdadeira vontade deles) e ir à neve.

No dia seguinte ao Natal (dia em que começamos a pensar na passagem de ano) lembrei-me das listas deles, ou mais concretamente, do objetivo não concretizado: ir à neve. Se era para o cumprir, já só tínhamos cinco dias. Marquei um hotel para a noite seguinte e fui à cave buscar “a caixa da neve”, caixa essa que alberga fatos, luvas e gorros herdados de geração em geração, de alguém que um dia comprou mesmo roupa de neve para usar apenas uma vez.
Acordámos cedo, vestimo-nos com aquilo nos servia (o meu filho de três anos foi com um fato para um ano e meio que lhe deixava os tornozelos de fora), enfiámos a mala e a pá no carro (sim, tínhamos na cave uma pá para deslizar na neve, vá-se lá saber porquê ou de quando) e pusemo-nos a caminho da Serra da Estrela.

Separei-me há oito meses e esta seria a nossa primeira viagem a cinco. Agora que olho para trás, acho que queria provar-lhes (e a mim mesma) que estamos bem, que as coisas não mudaram assim tanto.

Por uma vez decidi que a banda sonora estaria a meu cargo. Não aguentaria uma viagem de três horas a ouvir as Guerreiras do K-Pop. É claro que todos contestaram, é também claro que foram três horas a discutir, mas pelo menos, no meio dos gritos de “oh mãe, ela chamou-me burra”, sempre ouvia uns versos do Chico Buarque.

Enquanto o mapa nos colocava próximos da serra, o tempo continuava a aumentar e não a diminuir, como seria esperado. Decidi então parar numa estação de serviço e comprar almoço: uma sandes para cada um, um sumo, um pacote de batatas fritas e outro de bolachas para a sobremesa – um almoço saudável, nutritivo e amigo do ambiente. Dois minutos depois já tinham entornado um sumo e um pacote de batatas no chão do carro. Subi o volume do Chico.
Ao começarmos a subir a serra, entendi o porquê de o tempo ir aumentando: os carros estavam parados. Avançávamos dois metros a cada meia hora. O meu filho mais novo gritava: “Mãe! Podemos ir à praia? Eu não gosto de neve!” e eu subia o volume do Chico. O meu filho mais velho saía do carro, apanhava grandes pedaços de neve e voltava a entrar para os mostrar aos irmãos. Escusado será dizer que a “neve” se foi juntar ao sumo e às batatas. Duas horas depois, o GPS indicava estarmos a apenas 3km da Torre, mas o nevoeiro era cada vez mais denso. As pessoas estacionavam e a tentavam sair dos seus carros, fazendo um enorme esforço para manter os pés no chão, tal era a força do vento. Comecei a imaginar-me a sair do carro e ver os meus filhos voar um para cada lado, perdendo-os no meio do nevoeiro. Não vou negar que durante uns segundos a ideia não me pareceu má de todo. “Vamos voltar para baixo!”

Parámos num sítio onde já se via o sol, numa zona junto à estrada onde outras crianças brincavam. Preparei tudo: a cenoura, o cachecol do Benfica, a pá e, claro, os gorros e as luvas. Confesso, correndo o risco de me julgarem, que não tinha luvas para todos, e que por isso talvez alguns tenham ido brincar com meias antiderrapantes nas mãos, talvez.

Brincámos durante uns belíssimos dez, vá, doze minutos até todos começarem a chorar e a dizer que queriam ir para o carro, só o mais velho queria ficar. Entrámos no carro e mudei a roupa a todos enquanto o mais pequeno dizia: “Não gosto da neve, é fria.” Já todos mais secos, parámos num restaurante para beber um chocolate quente. Mais tarde este momento seria relembrado por todos eles como o melhor momento do dia.

Partimos então para Coimbra. Não me perguntem porquê Coimbra, a única razão foi por estar a duas horas de casa e não ter de conduzir tanto no dia seguinte. Ninguém diria que o único 20 da minha vida foi a Geografia. Fomos à cadeia de hambúrgueres que dispensa publicidade, para despachar o jantar o mais rápido possível e tentar manter (reconquistar ou conquistar) o lugar de melhor mãe do mundo, e meia hora depois estávamos no hotel. Escolhi um onde já tinha ficado, um que aparece na internet como “hotel familiar”.

Demorei quase uma hora a tentar que se acalmassem e só consegui tal proeza quando os deitei a todos na cama comigo. Éramos cinco numa cama de casal pequena. A meio da noite a minha filha mais nova acorda-me: “Mãe, não vais acreditar o que eu fiz na cama!”. Chichi, menos mal.
De manhã, depois de lhes gritar sempre em surdina que não fizessem barulho, de dizer frases como: “há quem junte todo o dinheiro que faz num ano para poder vir dormir a um hotel e vocês estão a perturbar essa pessoa” e de perceber que os meus filhos não tinham qualquer empatia pela pessoa imaginária em questão, fomos tomar o pequeno-almoço.

Era o típico buffet de hotel. As mesas estavam cheias de crianças e os meus apressaram-se a pegar nos pratos para os encher com tudo aquilo que não entra em nossa casa: bacon, salsichas e nutella, tudo a coexistir no mesmo prato fazendo jus ao conceito de agridoce. Finalmente consegui fazer a minha papa de aveia e sentei-me à mesa com eles. Enquanto conversávamos, eles saíam da mesa à vez para ir buscar mais sumo, mais um bolo de arroz ou mais salsicha com nutella, mas tudo se encontrava aparentemente calmo. Eis senão quando, as duas senhoras que estavam na mesa ao nosso lado se levantam e uma delas diz em inglês com um ar enfurecido: “Da próxima vez assegure-se de que os seus filhos ficam sentados à mesa e não se levantam.” Não sinto que as pessoas tenham a obrigação de aturar os meus filhos, tenho até muito cuidado com isso, mas estávamos num buffet. Quem fica sentado num buffet? E aquele hotel é um hotel pensado para famílias. Tudo isto foi o que disse a mim mesma para abafar a culpa que sentia.
Voltámos a enfiar a tralha toda no carro. Quando abri a minha porta apercebi-me de que decorria uma sondagem entre os meus filhos: “Quem é que acha que a mãe está sempre a gritar?”. Pus o “Both sides now” da Joni Mitchell e chorei as duas horas de caminho enquanto os meus filhos jogavam às cartas no banco de trás.

Talvez a senhora inglesa tenha razão e eu ainda não consiga controlar os meus filhos sozinha em viagem, talvez não continue tudo igual e talvez não esteja tudo bem, mas vou tentando, até porque na lista deles deste ano está: ir a Cabo Verde, truque que aprenderam comigo pois a viagem está marcada para o final de Janeiro.


Selva no Parque

Uma das minhas melhores amigas fez anos e decidiu celebrar a data num restaurante-cinderela, o novo conceito no qual à meia-noite um local que serve refeições se transforma, sem fadas nem “Bibbidi-Bobbidi-Boo”, numa discoteca. A partir das dez da noite a música vai subindo de forma pouco subtil e ficamos limitados a falar apenas com os nossos vizinhos do lado, aqueles mesmo coladinhos a nós. Isso às dez, porque às onze já só conseguimos que nos ouçam se lhes gritarmos com a boca dentro da orelha. É uma experiência interessante para uma pessoa tão faladora quanto eu, porque dei por mim pela primeira vez a pensar antes de falar: “Será que tenho mesmo de partilhar esta minha opinião sobre a alface iceberg?”.

Chegada a meia-noite, cantaram os parabéns à minha amiga e a outras dez pessoas que faziam anos no mesmo dia, e trouxeram-nos a conta, mesmo como quem diz “toca a despachar que isto agora é uma pista de dança e vocês sentadas ocupam muito mais espaço.” Quando olhei para a conta apercebi-me que iria pagar aproximadamente 5€ por cada bago de arroz arbóreo do meu risotto de lima, mas não comentei com ninguém; naquele momento a única maneira de o fazer seria por mensagem.

Pagámos, levantámo-nos e demos início à parte da dança. Não sendo a pessoa mais coordenada do mundo, adoro dançar e há já alguns anos que não punha os pés numa discoteca (há tantos que já nem se deve dizer discoteca, será o equivalente aos meus pais dizerem boîte?). Bom, o certo é que dado o tempo que estive ausente de um lugar de tal natureza, já não me lembrava da selva que vai ganhando vida ao longo da noite. É um verdadeiro “BBC vida selvagem”.

Para começar temos o Homo Habitualis. Não confundir com o Homo Sinistrus que, sendo também um frequentador assíduo, fica apenas a um canto a observar as suas presas com o olhar de quem foi vegetariano até àquele momento. O Homo Habitualis, pelo contrário, domina o lugar como se fosse um dos sócios, até porque, com as vezes que lá vai e o dinheiro que já lá gastou, dar-lhe-ia seguramente para adquirir uma quota da sociedade. O Homo Habitualis desliza pela pista passando habilmente por entre um mar compacto de gente, quando a maioria de nós sente que trocou ADN com dez indivíduos apenas no caminho para a casa de banho. O Homo Habitualis conhece todas as canções, sabe as letras de cor mesmo que sejam em línguas diferentes e ergue o braço a la fascista assim que ouve os primeiros acordes, como se cada canção fosse por si a mais aguardada. O Homo Habitualis é um predador atento e destemido, olha as presas sem hesitação e não se deixa abater quando uma das suas investidas não se prova frutífera.

Depois temos o Homo Pilaris, aquele que se aproxima do grupo de fêmeas e se vai colando cada vez mais, acabando por encontrar um lugar e ganhar raízes, ficando apenas a ocupar espaço sem nunca dançar. O Homo Furis utiliza a mesma técnica de aproximação do Homo Pilaris mas quando chega perto do grupo tenta, a todo o custo, com mais ou menos jeito, mais ou menos respeito, entrar no círculo fechado.

Durante todas estas investidas, as presas que nada fizeram para o ser (o contrário dirão os Numeiros desta vida), vão dançando numa roda cada vez mais fechada, acabando quase abraçadas a mexer apenas os olhos – uma técnica bastante utilizada no reino animal para fugir aos predadores.

À uma e meia da manhã, depois de uma dose suficiente de dança ocular e de música que fura os tímpanos, fui para casa, mas a verdade é que saí da minha noite de Selva no Parque com vontade de dançar de verdade, com espaço, com boa música e sem me sentir a ser narrada pelo David Attenborough.


Florifeia (crónica pré-autárquicas)

Na rotunda perto de minha casa foram “plantadas” algumas “flores”. Sim, o uso das aspas foi propositado, não quis apenas fazer chover no texto, mas a realidade é que aquilo que se encontra na rotunda não se pode chamar de flor e, como tal, também não se pode dizer que tenha sido plantado.

A primeira vez que as vi deram-me um ataque de riso tão grande, que tive de dar duas voltas à rotunda para tomar a saída que me convinha.

Vou terminar já com o suspense porque quanto maior for a vossa expectativa, maior será a desilusão. Ora, aquilo que colocaram na rotunda tem a forma de flor, mas é de tecido e tem uma cara a sorrir no centro. São umas dez e estão espaçadas com rigor. São flores de pelúcia.

Nas primeiras semanas as “flores” mantiveram as suas cores e o arame que as conservava hirtas, fez o seu trabalho. Mas vieram as chuvas, as estações foram passando e hoje todas elas estão descaídas, sujas e baças. É que ao contrário das flores verdadeiras a quem a chuva alimenta, nestas flores de faz-de-conta a chuva tem um efeito destrutivo. A cara continua a sorrir apesar de, na maioria delas, estar tapada pelas pétalas descaídas. Consigo ver naquela ação de cobrir a cara uma manifestação de vergonha, vergonha de um sorriso que se aguenta sem esmorecer enquanto o arame do suposto pé dá de si, deixando todas as flores-brinquedo curvadas e rodeadas de lixo.
Como já devem ter percebido, não moro em Oeiras. O Rei das Rotundas nunca permitiria tal vexame. Moro em Sintra, no Algueirão, uma zona com muita emigração e pouco dinheiro.

Nunca pensei que uma rotunda me pudesse causar tanta tristeza, mas a verdade é que não consigo evitar esta angústia que me cresce aqui em sítios perdidos entre o estômago e o coração. Porque não têm todas as pessoas direito a flores de verdade ou simplesmente a algo bonito?

Esta beleza artificial faz pouco de quem a olha e nem ela consegue manter a sua artificialidade: cansa-se de fingir e entristece, curva-se, acinzenta-se, murcha.
Pergunto-me se haverá mais rotundas no país como esta. Pergunto-me também quem terá tido esta brilhante ideia e encomendado tais relíquias na Temu. Provavelmente a mesma pessoa que pensou: “Deixa lá, eles ali nem sabem o que é bonito.”