Para o V.

Lancei o meu primeiro disco aos vinte e três anos. Como todos os artistas, comecei a receber mensagens nas redes sociais, sendo que naquela altura o Facebook ainda era filho único.

Todos os dias o V. me enviava alguma coisa: uma fotografia de uma guitarra feita de flores, um link para uma canção ou uma mensagem a desejar um bom dia. Desde logo percebi que não havia naquele contacto nenhuma tentativa de sedução nem maldade. Gostava da minha música e pensava gostar de mim também. Não há nada de estranho nisso, a maioria das pessoas tende a confundir as duas coisas.

O V. vinha a alguns concertos e enviava mensagens a todos os membros da banda. Era fácil simpatizar com ele, era um rapaz jovem, com um sorriso muito carinhoso. Todos respondíamos com amor às suas mensagens, porque sabíamos ser também amor o que estava na origem do seu contacto.

Um ano depois do lançamento do disco, fui convidada pela revista da TAP para fazer um artigo sobre uma zona do país que fosse especial para mim. Escolhi Porto Covo, local das minhas primeiras memórias de férias em família. Convidei uma amiga e lá fomos passar um fim-de-semana à Costa Alentejana com a equipa da TAP.

No último dia, assim que abri o Facebook, reagi com estranheza ao número de mensagens novas na caixa de entrada. Quando li a primeira, percebi que todas as outras teriam o mesmo conteúdo: o V. tinha partido durante o sono. As mensagens eram dos seus amigos, tantos. Informavam-me também do dia, hora e local das cerimónias.

Sentei-me na cama a tentar organizar os meus sentimentos. Tinha carinho pelo V., mas não me sabia importante na sua vida ao ponto de ser avisada da sua partida por todos os seus amigos, como se também eu fosse uma amiga chegada.

O funeral era no dia seguinte de manhã. Fiz a mala, levantei-me de madrugada, levei a minha amiga a casa e fui para o cemitério. Só quando lá cheguei é que me apercebi de algo óbvio: como vou saber quem é a família do V. quando não conheço ninguém a não ser ele? Entrei e fiquei ali à espera, sem saber bem o que aguardar. Não sei ao certo qual a temperatura nesse dia, mas na minha memória estavam quarenta graus. Lembro-me de ter conseguido desencantar uma roupa escura e do suor me escorrer pelas costas.

Assim que vejo entrar um grupo de pessoas, todos vestidos de preto, tento fazer contacto visual com uma senhora. Ela vem direta a mim, abraça-me com muita força e chora com a cabeça no meu peito. Era a mãe do V. Ficámos assim durante algum tempo. Quando me liberta, permanecemos de mãos dadas. A sua mão é forte, como quem diz que é ali que ela me quer. Fiquei a seu lado enquanto todos os familiares e amigos nos vinham dar os pêsames, às duas.

Quando a cerimónia terminou, dei-lhe outro abraço demorado e fui em direção ao carro. Assim que fechei a porta, chorei tudo o que não me fez sentido chorar em frente àquelas pessoas, pessoas que iniciavam um luto, pessoas que antecipavam a dor da saudade. Que legitimidade teriam as minhas lágrimas de “viúva faz de conta”?

Aquela mãe quis-me junto a si. Com apenas 24 anos, talvez tenha sido demasiado cedo para entender o meu lugar em tudo aquilo. Hoje, mais de 10 anos depois e já mãe, sinto-me feliz por ter estado naquele momento ao lado da mãe do V., por ela me ter escolhido.

O cemitério ficava perto de casa da minha avó e por isso liguei-lhe a perguntar se podia ir lá dormir uma sesta antes de ir para casa. Ainda era uma hora e meia de caminho e eu estava exausta. Liguei também aos meus pais a contar a minha manhã. A minha mãe ralhou-me por não lhe ter pedido que me acompanhasse.

Adormeci na cama da minha avó, acho que foi a única vez que ela me cedeu a sua cama. Acordei com os meus pais a bater na janela.