“Serviço óleo agora!” foi o que apareceu no mostrador do meu carro. Mostrador, nem sei se é esse o nome correto. Como todas as vezes que me aparece uma frase Tarzan no carro, ou uma luz qualquer (menos as vermelhas), deixei andar uns dias até começar a ouvir a voz do meu mecânico “Na maioria das vezes, quando temos de gastar muito dinheiro com um carro, não é pelo problema inicial, mas por termos demorado demasiado tempo a resolvê-lo e isso ter desencadeado outros problemas”.
Depois de deixar os meus filhos na escola, decidi que não podia passar de hoje. Entrei numa oficina e estava uma senhora ao balcão. Confesso que fiquei aliviada. Sinto-me muito julgada pelos homens em oficinas, mas sei que, na maior parte das vezes, o problema não são eles, sou eu. Tenho vergonha de não perceber nada de carros e de contribuir para o estereótipo. Às vezes imagino-me a abrir o capot à frente deles e dizer frases como “isto só pode ser a junta da cabeça”, mas a verdade é que nem sei o que é a junta da cabeça nem onde se encontra (no primeiro esboço deste texto tinha escrito “cabeça da junta”, só numa segunda leitura é que me soou mal e fui ver ao google). Hoje, para medir o nível do óleo, a senhora pediu-me que fizesse isso mesmo, abrir o capot. Por mais grave que isto possa parecer, eu não sabia onde estava a coisa que se puxa para o fazer abrir. Mergulhei para dentro do carro pensando para mim mesma “Tens de o encontrar, não pode estar assim tão escondido. Não podes dizer à senhora que não sabes como se abre o capot do teu próprio carro. Ela teria vergonha por todas nós.” Encontrei. Saí, como se o tempo extra que lá passei dentro tivesse sido para apanhar o lixo dos meus filhos ou a procurar trocos no chão. Vem um senhor ter comigo para verificar o nível do óleo e, como não têm tempo para ser eles a encher aquilo, procede a explicar-me onde o comprar e como saber até onde encher o depósito. A parte de onde comprar foi fácil, procurei no google maps e estava feito, a outra foi mais difícil. A questão é que, tudo o que tenha a ver com carros não me desperta o menor interesse,
então o meu cérebro desliga. Só conseguia ouvir “uuooouuuooouuuoooo” enquanto anuía.
Saí da oficina e fui comprar o óleo. Cheguei ao balcão e o senhor pergunta “Que tipo de óleo quer?” Como assim? Fula? Sei lá, é normal sabermos os tipos de óleo? “Dê-me a sua matrícula”, pede o senhor como quem pensa “Pronto, é mulher”, e eu, mais uma vez, a contribuir para o estereótipo. Quando eu pensava que já estava tudo dito, ele volta a olhar para mim, “Tem preferência por alguma marca?”, devo ter ficado com a cara daqueles bonecos japoneses com uma gota a pairar ao lado da cara. Será que posso pedir o genérico? “Tanto faz”.
Venho de duas famílias amantes de carros. O meu avô materno era piloto de automóveis e morreu após um acidente numa corrida em Angola. O irmão do meu pai também foi piloto durante alguns anos. Há quem tenha livros sobre o Van Gogh em cima da mesa de centro, a família da minha mãe tem livros com carros na capa, não sei bem sobre o quê especificamente porque nunca os abri. Os meus primos aprenderam todos a conduzir antes de andarem de triciclo. Eu chumbei duas vezes no exame de condução aos 23 anos, uma por passar um sinal vermelho, outra por entrar numa rua em sentido contrário. Dois examinadores que embirraram comigo.
Voltei a casa com o recipiente do óleo e desde já peço desculpa às minhas colegas de género por aquilo que fiz, não me orgulho, mas por mais que tente é mais forte que eu. Desculpem se estou a contribuir para que se continue a pensar que as mulheres não percebem nada de carros, mas esta mulher, não percebe nada de carros.
Entrei em casa, pousei o recipiente na mesa da entrada e deixei uma mensagem para o meu marido “Quando chegares a casa põe este óleo no meu carro sff”.