Faz agora um ano que me mudei para Sintra, mesmo antes do Natal. De lista de presentes no bolso, fui descobrir as lojas da vizinhança. Seria bem mais romântica esta história se tivesse ido a uma loja de bairro, mas acabei num centro comercial. O único estabelecimento perto de minha casa é uma bomba de gasolina que entretanto fechou.

Entrei numa livraria, daquelas que fazem parte de uma cadeia mas cujo nome não importa ser referido, e, enquanto estava atenta à secção das novidades, sinto uma pessoa a aproximar-se. “Já não vem cá há algum tempo”, diz-me uma rapariga que pela camisola percebo ser empregada da livraria. “Deve ser outra pessoa”, respondo embaraçada, “É a primeira vez que aqui venho”. Uma senhora ouve a conversa e diz à rapariga “Esta menina é cantora, deve conhecê-la daí”. A rapariga, que até então estava a sorrir, muda imediatamente de expressão e responde com tom ríspido “Não, tenho a certeza que é daqui”.

Não foi a primeira vez que isto me aconteceu. Quando tinha dezasseis anos e participei no “Ídolos” vinha muita gente ter comigo a perguntar se eu tinha andado na Secundária do Restelo, no Ginásio dos Olivais ou nas danças de salão de Benfica. Nessa altura tinha muita vergonha de lhes dizer que provavelmente me conheciam da televisão. Dizia só que não, que não tinha frequentado nenhum daqueles lugares, o que fazia com que elas pensassem em mais dez opções de cenários das suas vidas onde a minha cara fizesse sentido. Ao fim de um tempo longo deste jogo eu acabava por dizer entre dentes “Entrei num programa de televisão”, ao que maior parte das pessoas respondia “Não é daí. Eu não vejo televisão”. Esse orgulho de serem apanhadas na sua confusão sempre me fez a mim confusão. A minha mãe por vezes também cumprimentava pessoas das novelas na rua por pensar que as conhecia pessoalmente. Quando se apercebia, ria-se de si própria e fechava o episódio com um simples “Que disparate”.

A rapariga da livraria sofreu desse mesmo orgulho ferido. Virou as costas e entrou numa porta que imagino ser o armazém.

Despachada a lista de presentes, dirigi-me à caixa para pagar e lá estava ela à minha espera. Não estava a atender, estava mesmo só à minha espera. Não sei se estudou teatro mas disse com uma voz bem projetada para todos os clientes ouvirem “A senhora já veio a esta loja sim e até me lembro do livro que levou”. Eu que começava a achar alguma graça àquele descontrolo perguntei “Ai sim, e qual foi?”. “Por acaso” disse ela ainda mais alto e agora com um ligeiro sorriso maldoso “Foi um livro erótico”.

Nunca mais vi a rapariga na livraria mas continuo a ir lá com muita frequência. Quanto ao livro erótico, se algum dia quiser ler algum, acho que estou mais segura se o mandar vir da internet.