Nove meses e cinco dias

Vivi exatamente nove meses e cinco dias em Nova Iorque.

Em 2009, terminado o curso de música em Boston, o meu visto de estudante dava direito a um ano de OPT (optional practical training) num lugar à minha escolha, dentro dos Estados Unidos. Escolhi Nova Iorque.

Depois de alguns dias de intensa procura, encontrei finalmente um apartamento para mim e outros dois colegas de escola, em Brooklyn, na linha J. Estava longe de ser aquele Brooklyn romântico. Também era Nova Iorque dos filmes, mas dos filmes de gangues.

Namorava há cinco anos com um rapaz italiano e tínhamos combinado que ele viria ter comigo no ano seguinte, quando terminasse o curso. Nessa altura encontraríamos uma casa mais pequena só para nós. Tudo parecia perfeito. Estava apaixonada e a viver na cidade dos meus sonhos.

Comecei a procurar trabalho. Ofereci-me como: professora de música, de português para estrangeiros, de voz, de escrita de canções e de guitarra. Nada. Um curso superior não conta como experiência. Mas como esperavam que tivesse experiência se não me deixavam experimentar? As semanas rapidamente se juntaram num mês e comecei a ficar desesperada. Ninguém me respondia, e os poucos que o faziam, queriam alguém com um mínimo de cinco anos a trabalhar na área. Decidi expandir a pesquisa. Ofereci-me como: babysitter, tradutora, empregada doméstica e ajudante de cozinha. Nada. Desta vez, não só não tinha experiência, como me faltavam referências. Ainda tinha algum dinheiro de parte para pagar a renda daquele mês, mas não a do mês seguinte.

Numa semana em que começava a ponderar ir para a rua dos gangues vender o corpo, liga-me o meu namorado para me informar que, não só não viria viver comigo, como também não seria mais meu namorado.

Chorei por quase todas as ruas de Nova Iorque. Era o meu primeiro grande amor, e quando o primeiro amor acaba, leva com ele a esperança de algum dia vivermos um outro. Forçava-me todos os dias a acordar cedo, abrir as cortinas, mandar emails e sair à rua. Isso e o meu lado dramático de me imaginar num filme americano, chorando de desgosto pelas ruas de uma das cidades mais emblemáticas do mundo. Ninguém nunca parou para me perguntar se estava bem. Uma das melhores características daquela cidade é também a pior: ninguém quer saber.

Umas semanas mais tarde vi um anúncio num site. Estavam à procura de empregados de balcão para um café francês no Financial District. Pela primeira e única vez na minha vida, menti num currículo. Experiência? Sim, no café “Bolinhos da avó” em Lisboa (local totalmente fictício). Contacto? Claro! O da senhora Amélia (o número da minha mãe). Fiquei com o emprego. Tentei não dar ouvidos ao sentimento de culpa e focar-me apenas numa frase maravilhosa que lá aprendi: “Fake it until you make it”. Pouco tempo depois consegui também um gig semanal num restaurante italiano onde cantava standards de jazz e bossa nova e, umas semanas mais tarde, um outro num restaurante turco.

Voltei para Portugal sete meses mais tarde, quando recebi o convite de uma editora para gravar o meu primeiro disco. Não foi uma decisão fácil, mas queria cantar as minhas canções e não standards para o resto da vida.

Ainda hoje vejo Nova Iorque como o cenário do meu primeiro desgosto de amor. Hoje sei que no processo de me apaixonar por ela, me desapaixonei por ele. Só não voltei com uma caneca a dizer “NY I LOVE YOU”, porque não somos o tipo de casal que faz demonstrações públicas de afeto.