Florifeia (crónica pré-autárquicas)

Na rotunda perto de minha casa foram “plantadas” algumas “flores”. Sim, o uso das aspas foi propositado, não quis apenas fazer chover no texto, mas a realidade é que aquilo que se encontra na rotunda não se pode chamar de flor e, como tal, também não se pode dizer que tenha sido plantado.

A primeira vez que as vi deram-me um ataque de riso tão grande, que tive de dar duas voltas à rotunda para tomar a saída que me convinha.

Vou terminar já com o suspense porque quanto maior for a vossa expectativa, maior será a desilusão. Ora, aquilo que colocaram na rotunda tem a forma de flor, mas é de tecido e tem uma cara a sorrir no centro. São umas dez e estão espaçadas com rigor. São flores de pelúcia.

Nas primeiras semanas as “flores” mantiveram as suas cores e o arame que as conservava hirtas, fez o seu trabalho. Mas vieram as chuvas, as estações foram passando e hoje todas elas estão descaídas, sujas e baças. É que ao contrário das flores verdadeiras a quem a chuva alimenta, nestas flores de faz-de-conta a chuva tem um efeito destrutivo. A cara continua a sorrir apesar de, na maioria delas, estar tapada pelas pétalas descaídas. Consigo ver naquela ação de cobrir a cara uma manifestação de vergonha, vergonha de um sorriso que se aguenta sem esmorecer enquanto o arame do suposto pé dá de si, deixando todas as flores-brinquedo curvadas e rodeadas de lixo.
Como já devem ter percebido, não moro em Oeiras. O Rei das Rotundas nunca permitiria tal vexame. Moro em Sintra, no Algueirão, uma zona com muita emigração e pouco dinheiro.

Nunca pensei que uma rotunda me pudesse causar tanta tristeza, mas a verdade é que não consigo evitar esta angústia que me cresce aqui em sítios perdidos entre o estômago e o coração. Porque não têm todas as pessoas direito a flores de verdade ou simplesmente a algo bonito?

Esta beleza artificial faz pouco de quem a olha e nem ela consegue manter a sua artificialidade: cansa-se de fingir e entristece, curva-se, acinzenta-se, murcha.
Pergunto-me se haverá mais rotundas no país como esta. Pergunto-me também quem terá tido esta brilhante ideia e encomendado tais relíquias na Temu. Provavelmente a mesma pessoa que pensou: “Deixa lá, eles ali nem sabem o que é bonito.”