Edredão individual(ista)
Fui passar uns dias à Alemanha com o meu marido.
Depois de um avião, um autocarro e um comboio, chegámos finalmente ao hotel.
Em cima da cama de casal estavam dois edredões individuais dobrados ao meio. Quem viaja para países do norte da Europa sabe que isto é comum nos hotéis. “Que bem pensado”, disse o meu marido “assim não roubas o meu lado durante a noite”. Eu não respondi, sabia que uma noite seria suficiente para o fazer mudar de opinião. E assim foi. Acordou furioso com o frio e rogou pragas áquilo que no dia anterior lhe tinha parecido a melhor invenção de todos os tempos.
Para quem nunca passou a noite com uma peça de roupa de cama destas eu passo a explicar: são edredões individuais com a largura aproximada de uma toalha de banho (imaginar a toalha de pé). A única maneira que temos de estar totalmente cobertos por ele, é se dormirmos com os braços colados ao corpo e não nos mexermos toda a noite. Seria uma ótima opção para os caixões, caso fosse necessário.
Passei três noites à luta com aquela coisa. Assim que tapava um braço, o outro ficava de fora. Quando puxava o edredão para tapar o pescoço, saía um pé. Como é que os nórdicos e os seus metros e noventas cabem debaixo de uma coisa daquelas é uma pergunta que me faço cada vez que venho a um destes países e que continua sem resposta, talvez por ser feita a mim própria e não a um deles.
Isto pode parecer coisa pouca mas acho que diz bastante sobre um povo. Nós portugueses somos do toque, um povo adepto da conchinha e não há conchinha possível com estes edredões. Quando tentamos chegar ao outro, somos bloqueados por tecido e penas o que, se o cansaço for grande, nos faz acabar por desistir. É o equivalente a uma escalada nível moderado.
Na hora de dormir, os alemães são do clube “cada um por si” o que, para mim, se pode traduzir numa forma individualista de estar acordado.
Sei que quase todos os casais discutem o assunto do sono conjunto.
Um continua a querer dormir de edredão de penas em agosto e o outro passa a noite a transpirar; um ocupa a cama inteira como se brincasse aos anjinhos na neve e o outro acaba com a cabeça na mesa de cabeceira; há sempre um que acorda todo enrolado no edredão como se de um saco-cama se tratasse e o outro em posição fetal a tentar aquecer-se a si mesmo. Mas não fará esse puzzle humano parte de ser um casal, de nos adaptarmos à outra pessoa mesmo quando inconscientes?
Declaro-me oficialmente contra esses sacos de penas nórdicos, não só por sentir que passo a noite a tentar cobrir-me com um guardanapo de pano, mas porque de um cobertor individual à cama individual é um pulinho. E, por mais que eu seja aquela que acorda com a cabeça na mesa de cabeceira, quero continuar a esticar a perna e sentir o pé quente da pessoa que eu escolhi para partilhar o edredão comigo todas as noites.