Águas passadas

Hoje, enquanto levava os meus filhos à escola e os limpa-para-brisas sacudiam as Cataratas do Niágara que desabavam sobre o meu carro, lembrei-me do quão penoso era para mim ir para a escola em criança em dias como este. Nunca gostei da escola. Não era boa aluna como as minhas amigas (que tinham sempre as suas caras escarrapachadas no quadro de honra), nem compensava com o desporto. Era boa a música, mas quem queria saber de música numa escola religiosa nos anos 90? Ser boa a música era como ser boa a fazer lego, um passatempo. Já depois de ter tirado o curso superior, os pais das minhas amigas de infância ainda me perguntavam: “Então, continua com aquela mania da música?”. A música era isso, uma mania.

O ponto alto da minha semana na escola era o “Bom dia”, momento em que nos juntávamos com outras turmas na igreja para cantar canções religiosas, todas elas muito pouco interessantes, mas estava a cantar e fora da sala de aula, e isso, era o suficiente. Por vezes, após o “Bom dia”, seguia-se a confissão. Sentávamo-nos nos bancos longos em frente ao confessionário, tentando à pressa desencantar pecados de crianças de 11 anos e recapitulando o ato de contrição. Quando chegava a nossa vez, entravamos e ajoelhávamo-nos. O padre pousava uma mão em cada uma das nossas bochechas e ia batendo nelas enquanto falava. Tinha conquistado a alcunha de Padre Bate Chapas como consequência dessa prática. “Quem é a tua melhor amiga?” perguntava. “Hum… a Pilar”, “Não! Nossa Senhora! Reza duas Avé Maria e dois Pai Nosso.”

Estaria a mentir se dissesse que sofri durante todos esses anos. Não gostava da escola, mas gostava das minhas amigas e houve muitos dias em que não via a hora de sair do carro da minha mãe e passar pelo Senhor Fernando, o porteiro. Havia apenas um fator que me fazia acordar antes do despertador e sorrir ao passar as portas do colégio, fator esse que, com o passar do tempo, foi acontecendo cada vez mais regularmente: a paixão.

Quando estava apaixonada, ou com um fraquinho por alguém (como dizíamos nessa altura), a escola transformava-se no cenário perfeito para a troca de olhares, para um papel por baixo da mesa ou para um convite para almoçar. Nesses dias as horas passavam a correr, fizesse chuva ou sol, e cada intervalo era uma oportunidade para um avanço na relação.

A minha primeira paixão de escola foi o Diogo, cujo nickname do Mirc era Pezinhos de Pano. Depois das aulas íamos explorar a arte de beijar para um banco de jardim em frente de casa de uma amiga, enquanto ela experimentava a mesma arte com um amigo do Pézinhos de Pano no banco do lado. Lembro-me de pensar que beijar se tornava chato ao fim de uma hora, lembro-me que a língua ficava dormente, lembro-me que perdia a novidade, mas sabia a ser adulto, e isso era bom.