Cresci a pensar que a terapia era apenas para aqueles que não “fecham bem a mala”.
A primeira vez que me sentei no consultório de um psicólogo tinha 14 anos e fui obrigada pelos meus pais. Foi uma fase difícil da minha adolescência. Ou não comia, ou vomitava. O espelho refletia-me sempre mais gorda enquanto os números na balança diminuíam de dia para dia.
Desse período pouco me lembro, aliás, a minha memória diz-me que fui apenas a uma consulta, a minha mãe diz-me que foram seis meses de visitas semanais.
Mais tarde, já com 26 anos, decidi marcar uma consulta com a psicóloga de uma amiga. Tinha alguma dificuldade em chorar e achei que seria interessante falar sobre o assunto. Marquei como quem marca uma higienização no dentista. E assim foi. Fui, conversámos, saí, não voltei. O mesmo aconteceu quando descobri estar grávida do meu primeiro filho. Para mim ir ao psicólogo era aquilo. “Muito obrigada pela ajuda, daqui em diante é por minha conta”. Era sempre muito desconfortável quando, já no final, abriam a agenda para marcar a consulta seguinte. Respondia, com um pé no elevador, que ligaria depois para marcar. Nunca ligava.
Há dois anos, depois do nascimento do meu último filho, percebi que seria importante começar a tratar de mim, do corpo e da mente. Inscrevi-me no ginásio e marquei consulta com o psicólogo de um amigo, outro amigo, outro psicólogo.
Quando toquei à campainha ouvi um clic quase imediato, mas quando entrei não encontrei ninguém à minha espera. Fui pelo corredor até vislumbrar uma sala que aparentava ser uma sala de espera, pelo facto de ter a porta aberta e por lá dentro estar um rapaz sentado. Assim que entrei ele cumprimentou-me com um “Olá Luísa, tudo bem?” e um sorriso. Que estranho, pensei. Então isto deve ser o consultório, para ele me abordar de uma forma tão familiar. Mas não se parece nada com a pessoa na fotografia de whatsapp. Bem, há muita gente que não se parece com a fotografia do whatsapp. E tudo isto foi acontecendo na minha cabeça enquanto me sentava.
Um pouco desconfortável, por há muito não frequentar um consultório de um psicólogo, e porque há sempre tanta coisa para dizer numa primeira consulta, comecei a falar sobre a minha vida, primeiro a medo, depois, ao senti-lo escutar com atenção, com mais confiança. Quando já estava bastante integrada naquele novo lugar, e as palavras já me fluíam com uma enorme naturalidade, sou interrompida por um senhor que aparece na porta, esse sim, igual à fotografia do whatsapp: “Luísa? Vamos entrar?”
O rapaz é o técnico de som da banda de uma amiga. Tínhamos estado juntos uma vez num concerto. Só soube mais tarde.
Este episódio caricato não me afastou do consultório, pelo contrário, deu-me uma boa história para quebrar o gelo assim que me sentei naquele sofá que hoje me é tão familiar.
Quanto ao rapaz, não sei se se apercebeu do mal-entendido, se achou que eu era uma daquelas pessoas que partilham a sua vida com uma grande facilidade, ou se acabei por cair na categoria daqueles que, em criança, eu julgava serem os únicos clientes dos psicólogos, os que não fecham bem a mala.