Há uns dias, antes de entrar em palco, deparei-me com toda a minha equipa a olhar para um telemóvel. O que viam? Os Jogos Olímpicos. Em todos estes anos, nunca os tinha visto interessados em atletismo ou salto em comprimento e, no entanto, ali estavam eles, colados a um pequeno ecrã. A verdade é que ainda na semana passada dei por mim a chorar ao ver o atleta sueco, Armand Duplantis, bater o recorde olímpico de salto com vara. Chorei também quando a Angelina Topic, atleta serva de 19 anos, falhou o salto em altura de 1.95m e quando a inglesa Keely Hodgkinson venceu os 800m de atletismo. O estranho de tudo isto não é o facto de eu ter chorado (desde que fui mãe que choro sempre que canto os parabéns), o estranho é ter chorado com desporto, algo de que não gosto e que só faço porque dizem que ajuda a viver mais tempo.

Mas o que têm os Jogos Olímpicos para fazerem de pessoas como eu, grandes amantes de desporto, durante apenas quinze dias?

A primeira memória que tenho ligada à minha falta de jeito para desporto data de 96 ou 97, altura em que a série Baywatch (Marés Vivas) estava na moda. Em casa da minha avó havia uma piscina e alguém se lembrou de comprar boias vermelhas, iguais às da série, para podermos simular afogamentos (hoje que sou mãe, não entendo a ideia dos meus tios). No início das férias, os meus primos, todos eles bons nadadores, escolheram os seus personagens: o Mitch, a C.J, etc. Eu, a pior nadadora, fiquei com a personagem “afogada”, durante dois meses.

No segundo ciclo veio o pior dos meus traumas: o corta-mato. Era só o ano começar e eu dava início a uma dolorosa contagem decrescente. Há algo no meu corpo que faz com que ele, mesmo correndo, fique sempre no mesmo lugar. Deveria ser estudado, quando morrer vou doá-lo à ciência. Já agora podem também entender o porquê de eu ficar embriagada com dois goles de sangria, mas isso é outra conversa.

Ao fim de dois anos de últimos lugares no corta-mato, descobri uma maneira de me sentir menos humilhada: dizer que tinha optado por ficar para trás para ajudar os asmáticos, o que, numa escola religiosa, me ficou muito bem. Mais tarde consegui um atestado médico que me diagnosticava com “pé chato” e fui dispensada da atividade.

Ao longo dos anos de liceu, parti tantas vezes os dedos das mãos que os meus pais ficaram amigos de uma das médicas das urgências. Numa dessas visitas, após um jogo de basquete na aula de educação física, a médica perguntou-me qual o dedo que me doía, disse-lhe que era o mindinho da mão direita, mas também o da mão esquerda. Ela achou estranho, mas fez o raio-x a ambas as mãos. Saí de lá com uma tala em cada mindinho e uma vergonha enorme de voltar à escola no dia seguinte. Até hoje não consigo entender como uma bola de basquete foi capaz de tal proeza.

Nos meus anos de universidade, a viver em Boston, fui fazer ski com uns amigos. Subimos uma montanha enorme e ao ver-me lá em cima não tive coragem de a descer. Fingi sentir-me mal e os bombeiros foram buscar-me numa maca. Se me arrependo de ter mentido? Não, ainda hoje lá estaria.

Já em adulta, parti um dente numa aula de surf e noutra fui mordida por um peixe-aranha.
O universo está farto de me mostrar que não fui feita para isto e que não deveria insistir. Universo, ganhaste. Fico-me pelo ginásio e pela natação que, depois de me ter afogado tantas vezes, acabou por se tornar o único desporto que gosto verdadeiramente de praticar. Para além de ser seguro, sei que me vai ajudar na transição para a hidroginástica, algo que terei de fazer daqui a uns anos, quando começar com artroses e essas coisas que acontecem quando os corpos empenam.

Continuarei a sofrer com os atletas olímpicos nos próximos jogos, mas claro, do meu sofá, onde o meu ritmo cardíaco se mantém estável, os meus dedos a salvo e onde o maior movimento que tenho de fazer é o de levar uma mão até à caixa de lenços, enquanto assisto a uma partida de ténis de mesa.