Desmaiei pela primeira vez aos 6 anos ao ver o sangue que ocupava o lugar do meu primeiro dente de leite caído. Os meus desmaios não são como os das princesas, não ponho a mão na testa e vou resvalando lentamente. Os meus desmaios vêm acompanhados de convulsões e durante aqueles segundos, sonho que estou noutro lugar, o que torna o acordar muito confuso e angustiante.

Quando se deu o episódio do dente, os meus pais levaram-me imediatamente ao médico. Fiz vários exames para perceber se sofria de epilepsia. Não era epilepsia.

O desmaio tornou-se algo constante na minha vida. Desmaiava sempre que era vacinada, quando tirava sangue, quando me cortava a cozinhar, quando sentia o cheiro de um hospital (fui ver o meu pai ao recobro e acabei deitada no chão ao lado dele). Cheguei a desmaiar numa farmácia, desmaiava só por me contarem uma história que envolvesse sangue ou dor, tendo até acontecido ao fazer um ecocardiograma, pelo simples facto de estar a ouvir o meu coração. Quando fiz a minha primeira tatuagem, o rapaz saiu para ir buscar qualquer coisa e quando voltou eu tinha caído da maca com a cara no chão.

Fui fazer uma viagem pela Indonésia com o meu marido. Numa tarde sentei-me a ler num bar de praia enquanto ele ia surfar. O bar era conhecido como “Bar dos brasileiros” por ser frequentado, quase exclusivamente, por surfistas oriundos do Brasil, todos eles muito abençoados ao nível daquilo que se vê. Levantei-me para ir buscar uma bebida, tropecei e estatelei-me no chão. Lembro-me de me reerguer com um sorriso, tentando manter a dignidade, mas depois não me lembro de mais nada. Desmaiei. O meu marido voltou do surf e andava para trás e para a frente à minha procura enquanto eu, deitada no chão do “Bar dos brasileiros”, voltava a mim, rodeada de pessoas a pulverizarem-me a cara com um spray de conteúdo desconhecido. Até hoje o meu marido acha que eu desmaiei de dor, sendo que acabei mesmo por andar o resto das férias com um com um pé torcido, mas eu acredito que daquela vez tenha desmaiado de vergonha.

Há uns anos cortei todo o dedo indicador com a varinha mágica. Como já me conheço bem, disse ao meu marido: “Vou desmaiar ali no sofá e não vai ser bonito de se ver, mas não te assustes que eu já volto” e assim foi. Quando acordei ele estava em pânico, a querer chamar uma ambulância.

Enquanto estava grávida nunca perdi os sentidos. Tinha medo de afetar os bebés e forçava-me a pensar noutras coisas enquanto fazia a recolha de sangue e tudo aquilo a que uma mulher se submete durante a gravidez. Quando os meus filhos sangram também não tenho vontade de desmaiar. A maternidade dá-nos superpoderes.

Sempre me irritou muito o facto de não conseguir controlar o meu corpo fora das gravidezes. Sentia que na guerra entre o corpo e a cabeça, a cabeça saía sempre a perder e, isso, para alguém com necessidade de controlar tudo como eu, era desesperante. Agora a cabeça já vai ganhando algumas vezes e consegui até dar sangue, algo que nunca acreditei ser capaz de fazer.

Soube mais tarde que isto de que padeço tem um nome e não é só uma histeria como pensei toda a vida, são síncopes vasovagais e é hereditário. Esta última informação foi-me transmitida no outro dia pela pediatra, quando caiu o primeiro dente de leite da minha filha e eu me tornei pela primeira vez a espectadora.