Proponho um minuto de silêncio por todos os grupos de whatsapp que morreram há mais de um ano e jazem na memória dos nossos telemóveis.

Hoje em dia, qualquer combinação, por mais simples e restrita que seja, tem direito ao seu grupo de whatsapp, grupo esse que, invariavelmente, se estreia com a mensagem “Assim é mais fácil”. Será?

Ainda tenho o grupo das férias da Páscoa de há 4 anos na Serra da Estrela, o grupo do baby shower do Tomás, que fez 6 anos no mês passado, um grupo de despedida de solteira de uma amiga que já se divorciou, outro de 2017 com o nome “Jantar hoje. Quem alinha?”, e nesta demorada pesquisa descobri ainda que o grupo da eurovisão também não foi apagado: “Operação Kiev” de seu nome, sendo que, com os anos, este nome tornou-se um pouco perigoso, seria melhor apagá-lo. A questão é essa, deveria apagá-los todos, mas não o faço, não por saudosismo (valha-me Deus que ainda sou demasiado nova para ser saudosista), mas porque não me lembro de o fazer.

Tenho a certeza de que há por aí quem esteja a ler e a pensar “Eu faço uma limpeza mensal para ter sempre o meu whatsapp fresco e arejado”. Pois eu não. O meu tem muito grupo fora de prazo.

Quando faço concertos a duo fora de Portugal, a primeira coisa que o meu road manager faz é um novo grupo com o nome do país ou, quando está mais inspirado, uma frase (mudar o título de um antigo está fora de questão). Quando fomos tocar a Maiorca, por exemplo, o nome do grupo era “Vamos a la playa” o que me induziu em erro e me fez levar uma mala só com calções e t-shirts. Era janeiro. Morri de frio durante 3 dias. Sei que foi estupidez minha, mas culpo o nome do grupo na mesma.

Só de grupos de trabalho tenho o “Concertos quarteto”, “Concertos Luísa” “Luísa Sobral”, “LS Tour” , “DanSando” e “Summer Tour”. É uma loucura! Se tenho algo importante a dizer, nem sei onde o fazer.

Mas tenho de confessar que tudo isto foi apenas um pretexto para chegar a um tipo de grupo muito específico, a pior praga dos nossos tempos, dentro dos problemas de primeiro mundo, é claro. Talvez esteja a exagerar, mas queria que se entusiasmassem com a revelação. Falo-vos dos grupos de pais. É verdade, esse flagelo da sociedade moderna onde há quem documente com fotografias o dia-a-dia da Ritinha com varicela, onde uma mãe pergunta se alguém levou por acidente o casaco do Santiago e os vinte e dois pais respondem “Não está cá em casa” (o mesmo acontece com as mensagens de melhoras), onde todos os anos recebemos fotografias de Natal com as crianças muito bem vestidas ao lado da árvore, mais uma vez seguidas de vinte e duas mensagens de “Bom Natal para vocês também”, um grupo onde se julga a escola e as decisões dos professores sem nunca falar com eles, como se fossemos de equipas diferentes.

Há uns meses, a mãe de um rapaz da sala do meu filho mais novo, com a melhor das intenções, perguntou-me se eu queria ser adicionada ao grupo de pais. O meu filho tem dois anos. Para que serve um grupo de pais de crianças de dois anos? Tentando não ser indelicada, recusei a oferta e propus que voltássemos a falar sobre o assunto no primeiro ciclo.

Outra coisa que me irrita nos grupos de pais é que o próprio nome é uma falácia. Mais valia chamarem-se aquilo que são, “grupos de mães”, sendo que em média (sim, andei a fazer cálculos) apenas 10% de pais nos grupos de pais são, efetivamente, pais (progenitores do sexo masculino).

“E porque faço parte destes grupos se os critico tanto?”, perguntam vocês, ou talvez não perguntem, contudo, acho importante clarificar. Temo que os meus filhos fiquem de fora se eu não receber as mensagens, que não lhes chegue o convite para algum evento importante, que sejam eles a sofrer as consequências desta irritação que é apenas minha. Então fico. Desejo um feliz Natal à família de xadrez, digo que não tenho o casaco do Santiago, desejo as melhoras aos que estão com otite durante as férias de verão e ponho corações nas fotografias aleatórias e completamente descontextualizadas que por lá aparecem. Porque ser mãe é fazer a maior parte das coisas que jurámos nunca fazer. É tornarmos o “Não consegues vencê-los, junta-te a eles” no nosso lema de vida. É “paparmos grupos” enquanto eles nos papam a nós.