Uma das minhas melhores amigas fez anos e decidiu celebrar a data num restaurante-cinderela, o novo conceito no qual à meia-noite um local que serve refeições se transforma, sem fadas nem “Bibbidi-Bobbidi-Boo”, numa discoteca. A partir das dez da noite a música vai subindo de forma pouco subtil e ficamos limitados a falar apenas com os nossos vizinhos do lado, aqueles mesmo coladinhos a nós. Isso às dez, porque às onze já só conseguimos que nos ouçam se lhes gritarmos com a boca dentro da orelha. É uma experiência interessante para uma pessoa tão faladora quanto eu, porque dei por mim pela primeira vez a pensar antes de falar: “Será que tenho mesmo de partilhar esta minha opinião sobre a alface iceberg?”.
Chegada a meia-noite, cantaram os parabéns à minha amiga e a outras dez pessoas que faziam anos no mesmo dia, e trouxeram-nos a conta, mesmo como quem diz “toca a despachar que isto agora é uma pista de dança e vocês sentadas ocupam muito mais espaço.” Quando olhei para a conta apercebi-me que iria pagar aproximadamente 5€ por cada bago de arroz arbóreo do meu risotto de lima, mas não comentei com ninguém; naquele momento a única maneira de o fazer seria por mensagem.
Pagámos, levantámo-nos e demos início à parte da dança. Não sendo a pessoa mais coordenada do mundo, adoro dançar e há já alguns anos que não punha os pés numa discoteca (há tantos que já nem se deve dizer discoteca, será o equivalente aos meus pais dizerem boîte?). Bom, o certo é que dado o tempo que estive ausente de um lugar de tal natureza, já não me lembrava da selva que vai ganhando vida ao longo da noite. É um verdadeiro “BBC vida selvagem”.
Para começar temos o Homo Habitualis. Não confundir com o Homo Sinistrus que, sendo também um frequentador assíduo, fica apenas a um canto a observar as suas presas com o olhar de quem foi vegetariano até àquele momento. O Homo Habitualis, pelo contrário, domina o lugar como se fosse um dos sócios, até porque, com as vezes que lá vai e o dinheiro que já lá gastou, dar-lhe-ia seguramente para adquirir uma quota da sociedade. O Homo Habitualis desliza pela pista passando habilmente por entre um mar compacto de gente, quando a maioria de nós sente que trocou ADN com dez indivíduos apenas no caminho para a casa de banho. O Homo Habitualis conhece todas as canções, sabe as letras de cor mesmo que sejam em línguas diferentes e ergue o braço a la fascista assim que ouve os primeiros acordes, como se cada canção fosse por si a mais aguardada. O Homo Habitualis é um predador atento e destemido, olha as presas sem hesitação e não se deixa abater quando uma das suas investidas não se prova frutífera.
Depois temos o Homo Pilaris, aquele que se aproxima do grupo de fêmeas e se vai colando cada vez mais, acabando por encontrar um lugar e ganhar raízes, ficando apenas a ocupar espaço sem nunca dançar. O Homo Furis utiliza a mesma técnica de aproximação do Homo Pilaris mas quando chega perto do grupo tenta, a todo o custo, com mais ou menos jeito, mais ou menos respeito, entrar no círculo fechado.
Durante todas estas investidas, as presas que nada fizeram para o ser (o contrário dirão os Numeiros desta vida), vão dançando numa roda cada vez mais fechada, acabando quase abraçadas a mexer apenas os olhos – uma técnica bastante utilizada no reino animal para fugir aos predadores.
À uma e meia da manhã, depois de uma dose suficiente de dança ocular e de música que fura os tímpanos, fui para casa, mas a verdade é que saí da minha noite de Selva no Parque com vontade de dançar de verdade, com espaço, com boa música e sem me sentir a ser narrada pelo David Attenborough.