Fui de férias com os meus pais e os meus quatro filhos.

Começo já por dizer que é absurdo não haver outra palavra para este tempo passado com os nossos filhos quando eles têm menos de 6 anos, e quando não há quem cozinhe para nós e nos limpe a casa. Proponho PIAF (período intensivo de acumulação de funções), já que a palavra “férias” no dicionário significa “interrupção relativamente longa de trabalho, destinada ao descanso dos trabalhadores” e esta trabalhadora, teve tudo menos descanso.

Estando o carro cheio, dissemos adeus ao meu marido (que ficou a trabalhar), partimos rumo ao sul e demos início ao PIAF. O quarto que me calhou era muito pequeno e tinha de partilhá-lo com dois dos meus filhos. O único lugar possível para o berço do mais novo era junto à porta e, consequentemente, ao interruptor. Todos os dias acordava às 6h45 com ele a acender a luz e abrir a porta. Seguiam-se duas horas de pequenos-almoços (não podiam acordar todos ao mesmo tempo?), e de tentativas falhadas de convencer o mais novo a ver a “Bluey” para que eu pudesse dormir mais uns minutos no sofá.

Chegava finalmente a hora de ir para a praia. Lá ia eu com aqueles carrinhos que agora estão na moda, onde se põe as crianças, as toalhas e os brinquedos. O problema é que para chegar à praia tínhamos de subir uma ladeira, que se assemelhava a uma etapa do Everest, passar por uma zona de casas e percorrer uma estrada de terra batida, e tudo isto com 38º.

Já na praia, era altura de besuntar todos de protetor, sempre com muitos protestos (os últimos já ficavam mais besuntados de areia do que de protetor solar, o que aumentava o volume dos protestos). Estreei-me com um escaldão nas costas logo no primeiro dia, o que me fez passar os restantes seis de t-shirt e ficar com o célebre “bronze à camionista”. Apesar de chegar ao fim da tarde com rugas nas mãos de tanto protetor aplicado, esqueci-me que também eu tenho costas, e por sinal, bem mais brancas do que as dos meus filhos.

Seguiam-se vinte idas ao banho para aguentar o calor infernal, duas horas à beira mar a ponderar se era mesmo necessário ir buscar um dos miúdos à espuma ou se ele se conseguia safar, dez castelos na areia que a minha filha de quatro anos adora fazer e o de dois adora destruir, cem rondas de uno, dez pedidos de desculpa por minuto das pessoas que, sem cuidado, jogam raquetes em cima de quem não sabe jogar raquetes, e a dramática passagem do senhor das Bolas de Berlim que, não contente com a quantidade de açúcar do creme de ovos, traz agora bolas com Nutella.

Quando passava uma hora da hora desaconselhada para as crianças estarem na praia, decidíamos voltar para casa. Aí, era altura de preparar os almoços dos mais novos, deitar o bebé, cozinhar com mais calma (ri-me ao escrever esta palavra) o nosso almoço, arrumar a casa, ver uma exibição de cinquenta pinos dos miúdos na piscina (que tudo o que tinham de pino devia ficar debaixo de água, porque à superfície aparecia ocasionalmente um pé), outras cinquenta bombas e mais umas quantas piscinas de um lado ao outro sem respirar. Tudo isto acompanhado de um “Mãe! Olha!”

Depois de tudo isto, o mais novo acordava e voltávamos à saga da praia. Tudo se repetia. Foi assim durante sete dias.

À noite, depois dos banhos, de apanhar a roupa espalhada, de cozinhar, de dar jantar a todos, de arrumar a cozinha e de os deitar, só conseguia cair no sofá e abrir o livro que estava a ler e que, curiosamente, permaneceu na mesma página toda a semana.

O interessante de tudo isto é que dei por mim na manhã do último dia, enquanto arrumávamos a casa alugada, a dizer: “para o ano temos de trazer menos iogurtes”. Para o ano. Olhei para a pulseira que os meus filhos me compraram com o dinheiro que fizeram a vender conchas partidas, e uma enorme tristeza apoderou-se de mim. Tinha passado tão rápido.

Enquanto esperávamos o ferry para regressar, a minha filha deixou cair um brinquedo ao rio. Depois de uma semana destas eu podia ter fechado os olhos, podia ter-lhe dito que aquele seria o novo Natal dos peixinhos, podia não pensar na poluição. Podia, mas armei-me em super-mãe. Despi o macacão, saltei para a água e agarrei o brinquedo enquanto os meus filhos me aplaudiam lá de cima. Devolvi-lhe o brinquedo esperando um abraço de gratidão, quem sabe até algum orgulho, mas com toda a calma do mundo ela olha-me e diz: “Então, estava boa a água?”