Apareceu à minha porta um rapaz que prontamente se apresentou como funcionário de uma empresa fornecedora de energias renováveis. Quando me mostrei interessada em saber aquilo que me vinha propor, o rapaz (digo rapaz porque não teria mais de trinta anos) sai-se com uma daquelas perguntas que uma mulher com fé nos homens do seu país e da sua geração espera não ter de ouvir: “O seu marido está em casa para podermos falar?”

Eu que até estava de bom humor, mesmo sendo sábado à tarde e querendo tudo menos passá-lo a falar de bi-horários semanais, deixei imediatamente descair o sorriso e perguntei: “Desculpe, mas se fosse um homem a abrir-lhe a porta, pedia-lhe que chamasse a mulher?”, “Ah isso são aquelas questões de homens” respondeu ele a sorrir, rematando com “Não quero que o seu marido pergunte o que a senhora está a fazer aqui fora com outro homem”. Tudo o que saía da boca daquele rapaz eram pérolas. Respirei fundo, pensei no preço do kw/h que ele me estava a propor e respondi um quinto do que gostaria de ter respondido: “O senhor não sabe sequer se eu tenho ou não marido. De qualquer maneira quem está aqui sou eu e o contrato está em meu nome, logo, ou o senhor me explica o que veio aqui vender, ou pode ir falar com o vizinho que, sorte a sua, não é casado.”

Acabei por assinar os papéis, atribuindo à minha dignidade um valor total de 2 cêntimos por kw.

No ano passado decidimos fazer uma horta. Como temos galinhas, cabras, ovelhas e outros animais que, não sendo nossos, decidiram viver connosco, era imperativo montar uma vedação. Depois de navegar os mares do Pinterest por noites a fio, decidi que iria fazer uma vedação de paletes. Tinha o projeto todo na minha cabeça. Encontrei na internet um sítio que vendia paletes em bom estado e lá fui eu com o meu marido.

Quando chegámos, depois de percorrermos corredores infindáveis de paletes de vários tamanhos e tons de castanho, escolhemos as nossas preferidas. “Boa tarde. Gostei daquelas paletes ali ao fundo e queria saber quanto é cada uma.” Disse eu com toda a alegria de quem inicia a execução de um projeto Pinterest. “8€” respondeu o senhor secamente. Voltei à carga “E se comprarmos vinte, faz um desconto?” E foi então que, uma vez mais, dei de caras com ele, o monstro do “M” na camisola, quando o senhor me responde: “Eu não negoceio com mulheres.”

Há momentos em que o nosso casamento é posto à prova. Aquele foi um deles. Se o meu marido tivesse tentado negociar com o senhor, hoje não haveria mesmo um marido para o rapaz da eletricidade chamar. Olhei o senhor nos olhos e com toda a calma que fingi ter naquele momento disse “5€ por palete com entrega na segunda-feira”. “Ok”.

Ao relatar estes dois episódios à minha mãe, ela contou-me que na semana passada ligou para um senhor que o meu pai conhecia de criança, para visitar o atelier que ele estava a alugar. Ele respondeu-lhe: “Então depois eu falo com o seu marido para ele vir cá visitar primeiro.” Quando me descreveu este telefonema, não pude evitar visualizar o tal senhor montado num cavalo, com um bigode daqueles que encaracolam na ponta. Tenho mesmo uma grande dificuldade a imaginar alguém com menos de cem anos com tal mentalidade.

E é por tudo isto e outros tantos episódios que não relatei para não fazer desta crónica um pequeno livro que, apesar de falarmos muitas vezes do machista como um animal em vias de extinção, constato quase diariamente, e com grande tristeza, que ainda se veem muitos por aí, selvagens.