Em fevereiro participei no meu primeiro festival literário enquanto escritora. Estava combinado que o meu marido iria comigo até à Póvoa de Varzim, local onde se realiza o festival Correntes d’Escritas, para aquilo que seria simultaneamente um dia de trabalho e um dia romântico longe dos nossos filhos.

Acordei às seis da manhã e senti a onda de calor que o corpo do meu marido emanava. Estava com febre. O dia romântico já não iria acontecer. Apressei-me a comprar um bilhete de comboio para o Porto e duas horas depois estava na estação do Oriente, sozinha.

No Porto esperava-me um rapaz muito amável que me pediu que aguardássemos pelo Rafael Gallo, vencedor do Prémio Saramago em 2022. O Rafael chegou uns minutos depois, apresentámo-nos e dirigimo-nos para o carro do festival. “Aproveitei a viagem para terminar o meu texto” disse o Rafael enquanto punha o cinto de segurança. Texto? Tínhamos de preparar um texto? Descobri naquele momento que não só tínhamos de o preparar, como tinha de estar ligado a um quadro do Gauguin. Já não me bastava sentir-me completamente deslocada, como se tivesse mudado de escola e não conhecesse ninguém na escola nova, mas iria começar as aulas sendo a única a aparecer sem o trabalho de casa. Tentei desvalorizar, talvez o Rafael fosse o marrão da turma e houvesse outros como eu, amantes do improviso.

Após uma entrevista para a rádio fomos almoçar. Colei-me ao Rafael e à sua mulher por não conhecer mais ninguém e porque me pareceram um casal simpático, sem pensar que talvez eles quisessem viver o dia romântico que eu tinha idealizado para mim.

Tinha chegado a hora da apresentação. O auditório estava cheio e havia uma mesa no palco com lugar para seis escritores e um moderador. Abri o jogo com o Renato, o moderador, e pedi-lhe para ser a última. Disse-me que preferia que eu fosse a terceira e decidi não contestar. De qualquer forma, o tempo só me iria trazer mais ansiedade. O título do quadro do Gauguin era: “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”. Se ao menos uma das perguntas fosse: “Porque viemos?”… Enquanto me sentava ia pensando exatamente nisso, porque raio estava eu ali a fingir ser intelectual? Que iria eu dizer sobre aquele quadro ou sobre qualquer outra coisa que fosse verdadeiramente relevante? Que teria eu a acrescentar? Enquanto o Bento Balói lia o seu texto, peguei no post-it azul que tinha o meu nome e comecei a escrever ideias na parte de trás. O post-it era pequeno, assim como as ideias.

Quando chegou a minha vez, lia-se no pedaço de papel azul o ponto de partida e alguns lugares por onde queria passar ao longo do suposto discurso, mas o tempo não tinha sido suficiente para elaborar uma conclusão. Atirei-me. Atirei-me sem ter ideia de onde iria aterrar. Tentei falar devagar na esperança de que o tempo me ajudasse a avistar um fim digno daquele lugar, mas nada. Foi num desses longos silêncios que me lembrei de ter ouvido falar num orador que cantou. É isso. Talvez seja batota, mas é isso. Arranjei uma maneira de o quadro ir dar ao meu romance e de o romance ir dar à canção que lhe deu origem, e cantei. Cantei e senti-me em casa. Cantei e deixei de fingir entender o Gauguin e o seu quadro. Cantei e deixei de fingir.

Tem sido muito bonito entrar neste mundo literário, mas confesso que por vezes ainda me sinto uma estranha. Não conheço a cara dos escritores, apesar de ter lido muitos dos livros que escreveram, e isso faz de mim a campeã das gafes. Sinto-me uma peça solta. Pedi ao Rodrigo Calderón, escritor venezuelano, para me sentar ao seu lado ao jantar e ao Ondjaki para tomar com ele o pequeno-almoço. É como se voltasse aos tempos de liceu, mas sem vergonha e sem medo do que possam pensar de mim.

Ao refletir sobre este episódio tenho a certeza de que houve uma razão para aquele quadro me ser atribuído. As perguntas do pintor têm habitado o meu subconsciente nos últimos meses. Sei de onde venho, mas já não sei bem dizer quem sou. Ontem li uma crónica da Dulce Maria Cardoso onde ela contava que já se dizia escritora mesmo antes de ter começado a escrever. Eu lancei dois livros infantis e um romance e continuo com medo da palavra “escritora”. A escritora vai preparada para os festivais, a escritora faz pontes com quadros em conversas de café, a escritora diz-se escritora e ri em onomatopeias. A escritora. A Clarice Lispector. A Sophia. A Marguerite Duras. A Virginia Woolf. A Dulce Maria Cardoso.

No dia seguinte ao festival a minha equipa passou pela Póvoa para me ir buscar, tínhamos concerto em Fafe. Entrei na carrinha e voltei a ser a cantautora, voltei a saber exatamente o que fazer, voltei a pertencer. No entanto, antes de me deitar dei por mim com saudades do dia anterior, do mar de inverno da Póvoa, das refeições com estranhos, dos encontros com escritores que tanto admiro, das conversas, das apresentações de livros, das intervenções bonitas que ouvi e até do Gauguin.