Era tradição em casa da minha avó materna as crianças apresentarem uma peça de teatro aos adultos antes do jantar da consoada. E foi durante muitos anos a minha avó quem organizou tudo: escolhia o texto, tratava dos figurinos e ensaiava-nos naquele que era simultaneamente o primeiro ensaio e o ensaio geral.
Todos os anos eu sonhava ser a Nossa Senhora, nem sei bem porquê. Talvez porque todas as peças culminavam com o presépio e assim ficava mais tempo em palco, ou talvez porque a nossa senhora segurava o menino Jesus (o bebé mais recente) e isso agradava-me, não sei. A verdade é que o papel foi meu durante algum tempo porque a minha avó achava bonito ter uma Nossa Senhora loira de olhos azuis, uma visão um pouco ariana da coisa, sendo que, tendo a mãe de Jesus realmente existido, não seriam essas as suas cores certamente.
Quando a minha avó se fartou, talvez quando perdeu a conta aos netos, a função de encenadora passou para a minha mãe e depois para a minha prima mais velha. E por mais autoritária que a minha prima fosse (que era bastante) nada conseguia fazer com um grupo de primos que dava para encher um autocarro. Quanto mais ela gritava, mais nós nos riamos. Era uma anarquia, uma anarquia muito feliz.
Por guardar tão boas memórias destas peças, decidi aproveitar as dezoito crianças que tem a família do meu marido e fazer o mesmo.
Escrevi o texto em Novembro, partilhei-o com os meus sobrinhos, fiz uma canção e comecei a tratar dos figurinos com os meus filhos. Como enviei uma grande quantidade de livros nos últimos meses, tinha muitas caixas de cartão e usei-as para quase tudo. Por favor, não pensem que ficou grande coisa, não tenho qualquer habilidade para trabalhos manuais.
Chegou o dia da estreia e assim como em casa da minha avó, houve apenas um ensaio.
Tudo começou bem, os três narradores estavam muito direitinhos nos seus lugares, o narrador 1 segurava o microfone e a minha filha mais velha fingia dormir no chão. Abri as portas de vidro para simular as cortinas e demos início à peça: “O Pai Natal desapareceu”. O duende entrou, disse o que tinha a dizer com um enorme profissionalismo e saiu. A minha filha esqueceu-se que estava a representar e ficou a assistir aos narradores enquanto eu lhe fazia sinais para que saísse também. Nada. Entrei em cena para a tirar, tirei-lhe o pijama que tinha por cima da roupa e empurrei-a lá para dentro outra vez com um computador de cartão. Depois foi a vez de entrarem os microfones (por microfones entenda-se duas crianças de 4 anos com capacetes de papel de alumínio a dançar o “Video killed the radio star”).
Foi aí que tudo começou a descambar: um dos meus sobrinhos pôs a bandeira na cabeça antes do tempo, as canções voltavam a tocar por vontade própria, o meu filho mais velho entrou de Pai Natal enquanto o mais novo lhe tentava arrancar as barbas, os narradores largaram os papéis para assistir ao caos, um outro sobrinho não quis entrar e a coluna do microfone desligou-se. Voltámos a ligá-la, mas agora as vozes saíam cheias de eco, como nos carrinhos de choque. Naquele momento assumi que fazia parte do elenco, dançando, vestindo fatos em cena, gritando “Narrador 3!” e dizendo as falas em voz alta quando se esqueciam delas. À minha filha, que entra para a cena final sem ter voltado a vestir o pijama como era suposto, digo apenas “Tapa-te até ao pescoço com a manta”. O Pai Natal deixa o presente, lê uma carta inspiracional e ponho o “A todos um bom Natal” a tocar bem alto. Chegámos ao fim. Nunca fiz uma prova de triatlo, mas a sensação à chegada deve ser bastante semelhante àquela. Seguem-se cinco minutos de vénias e eu dou por mim a pensar “Até não correu assim tão mal. Para o ano vou ser mais ambiciosa.”