Fui convidada pela Embaixada de Portugal na Coreia do Sul para um concerto no âmbito das comemorações do 10 de Junho. Nunca tinha visitado a Coreia e, sendo eu uma grande apaixonada pela Ásia, recebi o convite com um enorme entusiasmo.
Não vou relatar os meus dias a deambular por Seul porque, para além de os poderem ver no meu Instagram, resumem-se muito rapidamente a: comer, comer, comer, andar, comer.
O concerto foi bastante intimista, para um público maioritariamente coreano, à exceção de alguns representantes de outros países.
No final, a embaixadora de Portugal apresentou-me a embaixadora da África do Sul, que pela minha calculadora de idades, em geral bastante certeira, deveria ter por volta de 60 anos.
Começámos a falar sobre Boston. Ambas tínhamos lá estudado mas em alturas diferentes e universidades diferentes. E foi então que aconteceu. Aquele momento breve de silêncio que antecipa um momento longo da mesma espécie, aqueles segundos que, ou são preenchidos imediatamente, ou acontece o tão temido, pelo menos por mim, silêncio constrangedor. Fujo do silêncio constrangedor como do porco no espeto. No outro dia ao falar com uma amiga que tinha acabado de fazer um curso de eneagrama, aprendi que não estou sozinha, que este comportamento é típico das personalidades tipo 6. Ou seria 7? Não me lembro. Mas retive a ideia de que há mais gente como eu. É devido a esta minha condição que eu e o meu marido somos sempre colocados nas mesas dos convidados a vulso, aqueles que não pertencem a um grupo, “Espero que não se importem, é que vocês fazem conversa com toda a gente”. Mas isso é um assunto para outro texto. Voltemos à Coreia e à embaixadora da África do Sul. Ora, quem gosta de ler sabe que os livros são um ótimo assunto para quando nos encontramos sem assunto. Foi o que eu fiz. Saquei o Trevor Noah da cartola e o seu livro “Born a crime” (“Sou um crime” em português). Foi assim que dei início a um monólogo sobre tudo o que aprendi em relação ao apartheid com aquele livro. “Ai não o leu, devia. É muito bom”, “Os mulatos eram expulsos dos bairros dos negros e dos brancos”, “A avó do Trevor Noah não lhe batia, como fazia aos outros netos, por ele ser mais branco”, “bla, bla, bla, bla”, continuava eu no meu monólogo. Ela sorria com um olhar carinhoso. Talvez tenha havido alguma pena à mistura, mas não reparei na altura.
Despedimo-nos. Mais um silêncio constrangedor vencido com sucesso! A senhora despediu-se e saiu. A embaixadora de Portugal pede para terminarmos a noite com uma fotografia com todas as pessoas da embaixada, mas antes diz-me “Ai Luísa, acabei por não lhe explicar quem era aquela senhora da África do Sul. Ela é filha do Nelson Mandela”.
Na fotografia estou eu muito sorridente, minutos antes de me armar em boa e fazer um buraco no chão da sala da senhora embaixadora. Do meu lado direito está a Zenani, que não só é filha do Nelson Mandela, tendo vivido toda a infância e adolescência com um pai preso por causa do apartheid, como chegou a ser primeira-dama da África do Sul.
Sei que vou continuar a recorrer aos livros para fugir dos silêncios ruidosos, mas da próxima vez talvez escolha algo mais simples. “As palavras que nunca te direi”, esse sim, teria sido o livro perfeito.