Quando fiz os “Desconcertos” com o António Zambujo, o César Mourão e o Miguel Araújo, um dos momentos do espetáculo consistia em chamar ao palco alguém do público, colocá-lo no centro de uma moldura gigante e, enquanto o César e o Zambas iam improvisando sem nunca falar com o convidado, eu e o Miguel escrevíamos uma canção, tentando adivinhar qual a profissão dele, de onde vinha e, claro, o seu nome.

No primeiro espetáculo acertei no nome do rapaz e que era da Costa da Caparica. Esta última suposição foi bastante fácil porque vestia uma t-shirt de surf mas, o nome, isso já foi mais bizarro. Ainda hoje penso nisso. Será que quando nos dão um nome, o nosso corpo e até a nossa personalidade se moldam a ele? Como é que alguém tem cara de Zé? Qual a verdadeira influência do nosso nome na nossa vida? Quando era miúda chamavam-me muitas vezes “Isabel” e, ao corrigi-los, respondiam-me sempre: “Desculpa, é que tens mesmo cara de Isabel.” Mas como é a cara de uma Isabel? Têm todas a mesma? E mais importante ainda, terei recebido o nome errado à nascença?

Esta questão ganha ainda mais importância quando temos de escolher os nomes dos nossos filhos. Há sempre alguém da família que diz coisas como “Ai Rita não! Rita era uma miúda da minha turma de quem eu não gostava nada.” Ou pior, há homens que dão o argumento que mais me arrepia: “Ai Vera não! Vera era uma miúda da minha turma que namorava (versão leve) com todos.” Está obviamente tudo errado com esta observação, mas por agora foquemo-nos somente na ideia do nome, que a crónica dos comentários machistas já foi há umas semanas. Achamos mesmo que com o nome vem uma personalidade? Quando eu e o meu marido decidimos chamar Camila a uma das nossas filhas, a geração dos meus pais ficou em choque: “Camila? Como a Camila Parker Bowles?” Hum… sim, e como 20% das mulheres brasileiras.

A minha mãe tem uma convicção ainda mais estranha do que esta de nos tornarmos no nosso nome. Ela acha, acredita mesmo, que as pessoas ficam iguais aos seus cães, fisicamente, é claro. Está tudo na cabeça dela porque por vezes vemos um senhor entroncado a passear o seu Chihuahua e a minha mãe diz logo: “Vês? É o que eu digo: iguaizinhos”. Ao comentar com o meu marido esta tara da minha mãe, ele diz-me: “Eu percebo. Cada pessoa se parece com uma raça específica. Tu és um Galgo Afegão”. Como assim? Tenho cara de Isabel ou de Galgo Afegão? Ou de um Galgo Afegão chamado Isabel?

Parem já! Não façam o que eu fiz. Não procurem a raça no google. Fiquei de cama durante uma semana com uma caixa de lenços. Deixo-vos apenas com esta fotografia que sim, podia ser eu com 15 anos pronta para sair para o “Garage”, com o cabelo esticado, uma risca exageradamente ao lado, franja à frente dos olhos, e um colar daqueles elásticos que ficavam colados a meio do pescoço.

Bom, para encerrar esta divagação sem qualquer interesse ou relevância, deixo-vos com uma informação importante que escolhi omitir no início. Fizemos mais 7 “Desconcertos” e nunca mais acertei no nome de quem se encontrava dentro da moldura.