A minha relação com o campismo é o equivalente a um “conheço de vista”. Lembro-me de montar com os meus primos uma tenda no jardim da nossa avó e da intenção de lá passarmos a noite, lembro-me também de, invariavelmente, acabarmos a noite na cozinha dela a beber leite com Suchard Express e a comer línguas de gato.

As minhas amigas eram grandes frequentadoras de campos de férias (no mundo dos betos o campo de férias é o grande acontecimento do ano) e eu cheguei a tentar juntar-me a elas, mas nunca entrei. E assim fui crescendo, sem provar as supostas maravilhas de dormir no chão, em contacto com a natureza.

Mais tarde, já adulta, fui subir um vulcão na Indonésia durante quatro dias. Da experiência térmica de dormir numa tenda, guardo apenas a memória de ter visitado a Islândia durante a noite e acordado no Dubai.

Já com filhos, descobri o glamping, modalidade que chegámos a praticar umas quantas vezes. É bom para quem quer dizer que gosta de ir acampar, mas não dispensa dormir numa cama. Temos o estatuto sem o desconforto. Por último, entreguei-me ainda o autocaravanismo, versão da qual fiquei muitíssimo fã, tão fã que depois de três anos a alugar uma autocaravana, meti na cabeça que o ideal seria comprar uma. Foi o sonho mais curto que tive, durou o tempo de abrir o computador e pesquisar os preços.

Na semana passada, numa visita à cave com os meus filhos, deparei-me com uma tenda que me havia sido oferecida pelo meu irmão há uns bons anos. Ali estava ela, novinha em folha, ainda dentro do saco. “Querem montar uma tenda no jardim?” saiu-me com o entusiasmo das mães que dão tudo nas férias.

Lembrava-me de o meu irmão me ter dito que aquela tenda era das “fáceis de montar”. O problema é que ainda está para ser inventado um objeto que eu considere fácil de montar. Nem os bonecos quem vêm dentro dos ovos Kinder são simples para mim.

Assim que me deparo com instruções de montagem, o meu cérebro desiste imediatamente. Tenho cómodas que nunca tiveram puxadores, gavetas que nunca abriram e estantes com parafusos apontados a mim saídos das costas por eu ter falhado a trave de madeira ao martelá-los.

Comecei por colocar as estacas nos quatro cantos, para logo perceber que aquilo que martelara não eram as estacas, mas sim piquetas. Tirei tudo e substituí pelas estacas de verdade. A tenda era efetivamente das fáceis e foi só encher com uma bomba que vinha dentro do saco. Mais três horas a olhar para uns pauzinhos que se enfiavam uns nos outros, até perceber onde os colocar e um outro pau da mesma natureza, cuja função nunca cheguei a deslindar, e como tal, regressou ao saco. Para finalizar, voltei a colocar as piquetas, desta vez no seu devido lugar, sendo que já estavam tortas da força que havia sido feita para as colocar no lugar das estacas. Estava pronta a nossa tenda! Era enorme, um verdadeiro T2 com uma sala no meio. Algo com aquele tamanho no centro de Lisboa deveria render uns bons 1500€ por mês.

Preparámos tudo para a grande noite dos meus filhos na sua casa ao relento. Como o meu filho mais novo estava com febre, não me pude juntar aos outros (escusado será dizer que a minha tristeza não foi grande). Levámos colchões, edredons e almofadas. Obriguei-os a vestirem-se como se fossem passar a noite ao Alasca e li-lhes uma história com a lanterna. Eram dez da noite quando os deixei, dez e dez quando a primeira regressou a casa, dez e onze quando recebi o último sobrevivente. A experiência dos meus filhos com o campismo conseguiu ser ainda mais curta do que a minha.

A tenda ali ficou durante uns dias até a relva começar a secar e ser tempo de voltar para saco. Desmontei-a sem me aperceber de que o chão da “sala” estava molhado e que os colchões permaneciam nos “quartos”. Era demasiado tarde, não a voltaria a erguer. Enquanto uns esticavam os braços para segurar o teto da tenda e eu limpava a água com a esfregona, outro tirava os colchões e brinquedos que tinham ido lá parar nem sei bem quando.

Havia chegado a hora de dobrar a tenda e de a devolver ao saco. Aqui reside para mim talvez o maior problema do campismo: nada cabe no saco de onde saiu. É como se as coisas crescessem quando em liberdade. Foram quatro as tentativas. Por três vezes dobrámos a tenda para a voltar a desdobrar. A cada dobra mergulhávamos todos para cima do tecido para tirar o ar. Mas quanto ar pode uma tenda ter? Sentia-me a perder o ar juntamente com a tenda, enquanto me esparramava e fazia anjinhos de neve para me assegurar de que chegava a todo o lado e de que nem uma molécula de oxigénio sobrevivia no meio de todo aquele tecido e plástico. À quarta vez a tenda entrou no saco, mas o fecho estava longe de fechar. O ar, só podia ser o ar. Apercebo-me de que a bomba e os sacos das piquetas e das estacas ainda estão na relva. Desisto, vai assim para a cave, como uma Bola de Berlim a transbordar de creme. E lá ficou o saco a um canto, com tanto material dentro como fora.

Daqui a três anos haveremos de nos lembrar dela novamente e, quem sabe, não dormimos lá uma noite inteira.